Você pode ser feliz

Você pode ser feliz, minha cara. Me dei conta disso. Você pode, completa e totalmente ser feliz, feliz de enlouquecer a cabeça e encaracolar os cabelos. Mas tenho, hoje, plena consciência de que você não estava mais feliz ao meu lado, no dia em que me deixou. Lembro de ter aberto a porta e ter visto as malas. Sabe que até hoje tenho dificuldades de usar malas com rodinhas? De uma forma ou de outra, elas me lembram o baque daquele dia, em que você me olhava com um fundo de esperança, mas infeliz. Que realidade mais difícil de encarar ali, na minha frente. Quer dizer, minha arrogância e meu orgulho jamais aceitariam minha impotência, e incapacidade de te fazer feliz. Quase não era justo que tivessem que conviver no mesmo corpo. Mas destino é destino e um jovem metido como eu sempre fui teve que lidar com a sensação de total incompetência para fazer a pessoa que ele mais amava na vida feliz. E não te fazia. Você não era. Não convencia. Nada encaixava. Tudo era disforme. Algo, com toda a certeza, cheirava mal durante aquela conversa. Pouco continuava brilhando. Um único fio de respeito separava um casal apaixonado da barbárie. Desafiei você. Disse que éramos eternamente dependentes um do outro. E que você ia voltar. Cedo, tarde, muito tarde, na encarnação seguinte. Mas ia voltar. Egoísmo, clássico. Claro que não é assim. Eu dependo de você, assumidamente, hoje, e sempre acreditei que você também era assim. Egocentrismo, é evidente. Sempre quis e cri que toda a sua felicidade girasse em torno do meu ser, do meu indivíduo. Queria ser o responsável por te fazer sorrir, te motivar e permitir que sua vida fosse mais fácil. E queria que sem mim, você fosse incapaz de tudo isso. Só para estar sempre com você. Só. E hoje percebo que você pode ser feliz, sozinha. Vivendo sozinha, lendo sozinha, trabalhando sozinha. Você é independente o suficiente pra ser feliz sozinha. Eu não. Você sim. Sempre foi assim. Não vai mudar. Não defini ainda se isso é bom. Mas é um fato. E se tem uma coisa que eu sei é que com fatos a gente lida, mas não briga.

Você pode ser feliz, tesouro. Naquele dia houve tantas coisas que eu gostaria ou não de ter dito. Gostaria ou não de ter deixado claro pra você. Gostaria ou não de ter impedido. Não sei. Talvez eu devesse ter impedido a sua saída, ter jogado querosene e um fósforo aceso naquelas malas, ter jurado cometer o suicídio. Talvez eu devesse ter impedido que minha própria incapacidade me atingisse de forma tão brutal e impiedosa. Pensando que você está melhor agora, fico na dúvida de qual deveria ter sido a minha atitude. Talvez eu nem te fizesse tão bem assim. Se for assim, seria quase cruel da minha parte querer você comigo. Tudo isso circula num vício dentro da minha cabeça, dentro de imagens. Eu sempre serei um artista maluco, um cineasta perdido que vê fotos e se esquece que a vida não é quadro a quadro. Nós éramos ótimos, lembra? Eu lembro. Tudo o que eu me lembro de nós dois é relacionado a coisas boas. De ponta a ponta. Quis tanto construir um sentimento negativo a seu respeito que hoje, o que eu sinto por você é, de fato, a coisa mais bonita que existe dentro do meu coração. Ousaria, só para não perder de costume, que é a coisa mais bonita que um ser humano pode sentir por outro. Algo de nobre, algo de puro, algo de intacto. Algo de perene, de novo e de enobrecedor. Sabe como é? Sublime mesmo. À prova de qualquer coisa.

Você pode ser feliz, minha querida. Eu, talvez. Menos provável. Mas juro que isso não respinga nada de melancolia e nenhuma responsabilidade disso é sua. É tudo meu mesmo, do jeito que eu sempre gostei. Fiz, fiz, fiz, até que tudo ficou sob minha responsabilidade. Que droga isso, não é? De uma forma misteriosa, tudo o que eu tenho cheira a você. E hoje, enquanto eu escrevi tudo isso, por um breve e maravilhoso segundo sentindo o seu cheiro nas canetas, nada foi verdade e você esteve do meu lado de novo. Você sempre me fez muito feliz, muito mais feliz do que tinha sido até então, e eu quero te eximir de mais essa responsabilidade. Você já cumpriu o seu papel comigo. E muito bem cumprido, obrigado.

Você pode ser feliz, bela. Vá, voe, e tome sua parte gloriosa do mundo. Compreendo o quanto deve ser importante pra você. E nada me deixa mais feliz do que saber que você alçou vôo de encontro aos teus sonhos. Seus sonhos e os meus tendiam e tendem a lados diferentes. Por muito tempo quis que você abrisse mão dos teus. Nunca quis abrir mão dos meus. Hoje vamos, os dois, em busca do que nos fará felizes, ainda que em lugares opostos. É difícil ficar longe de você, mas o que é um homem sem sonhos? É um homem nu, bela. Um homem nu. Nós nos vestimos, nos despedimos e, de certa forma, deixando todo o egoísmo de lado, fico bem. Fico feliz. Sei que você está bem vestida e sei que vou costurando minha roupa aos poucos, sem pressa, contornando com a linha a falta que você me faz e que sempre me fará. Mas, veja: eu continuo costurando. Não se culpe. Alce vôo porque eu quero te ver lá em cima. Quero que todo mundo possa ver o quanto você é maravilhosa. E eu só vou poder me lembrar que, um dia, você esteve visitando a minha casa.

Você pode ser feliz, meu amor. Eu não vou chegar a acompanhar isso de perto. Mas de uma forma ou de outra, saber que você está feliz me conforta o suficiente pra que eu coloque a cabeça no travesseiro agora e durma. Boa noite.


Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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