Virar mulher

Enquanto ela lavava a louça e rezava para que a máquina demorasse um pouco mais para terminar de bater a roupa, a filha entrou correndo em casa da rua. Férias, ainda por cima. Ou em ou mal, a rotina era muito alterada por uma criança em casa.

Mas a menina entrou, gritou um oi e correu para o quarto. Comportamento estranho, a mãe não pôde deixar de notar. Enxugou a testa suada e lavou as mãos cansadas de mais de trinta anos.

– Clarinha, tá tudo bem, filha?

– Sim, mamãe. Não se preocupe comigo, vou ficar aqui no quarto hoje. – oficialmente preocupada, ela se propôs a ir ver o que havia assim que acabasse o itinerário louça-roupa-comida.

O silêncio foi demais e ela deixou a carne na panela de pressão para ver a filha. Chegou no quarto e, mandando ética e políticas de privacidade às favas, espiou pela fechadura e viu a filha esfregando a bermuda, tentando limpar alguma coisa. Confusa, abriu a porta.

– Filha, tudo bem? – a menina olhou a mãe e começou a chorar. A mãe se aproximou e disse, enquanto abraçava a filha. – “Deixa eu ver, deixa… – imaginou ver uma sujeira qualquer, terra, mato, ketchup. Mas era outro tipo de vermelho.

– Eu não sei por que tá saindo sangue, aí eu…

– Shhhh, minha filha. Fica Calma. Toma um banho que a mamãe já vai explicar o que aconteceu. – a menina se acalmou magicamente e foi para o banho. A mãe colocou a bermudinha suja de molho e foi conversar com a filha, que já tinha desligado o chuveiro.

– Meu amor, o que aconteceu hoje foi uma transformação. Agora, você é uma mulher e, no futuro, vai poder ser mãe.

– O que isso quer dizer?

– O que? Ser mãe?

– Não, mamãe. Ser mulher.

A mãe ficou em silêncio e deu um sorriso para a filha de 11 anos, que a olhava confusa, perdida e ansiosa pelo que a nova fase proporcionaria.

– Olhe para mim. Eu cuido da casa, do papai, de você. Cozinho coisas gostosas, lavo roupa, deixo tudo em ordem e fico sempre pronta para ajudar vocês. Isso é ser mulher.

A menina não respondeu, mas dava para ver as engrenagens se mexendo na cabeça dela.

– Filha? Tudo bem?

– É só isso mamãe?

– O que, filha?

– Ser mulher é só cuidar? Não tem mais nada que eu possa fazer? – a mãe ficou sem saber o que fazer. Olhou para a própria roupa suja de ovo e para as marcas de queimado nos braços.

– Olha, filha, isso você vai ter tempo para descobrir.

A menina foi brincar e a mãe voltou às suas atividades. A noite chegou, Clarice dormiu e sua mãe bem que tentou. Mas ficou pensando naquela pergunta que veio tão espontânea por parte da filha. E se sentiu constrangida por não ser um exemplo da resposta que a pequena desejava escutar.

Durante a noite, foi até o quarto e brinquedos e começou a colocar alguns itens dentro de uma caixa. Encontrou um móvel velho, montou no lugar e começou a organizar para falar de verdade com Clarice na manhã seguinte.

– Bom dia, mamãe!

– Bom dia, filha. Vem comigo até o quarto de brinquedo. – A menina seguiu, andando meio esquisito devido ao novo artefato que carregava consigo.

– Cadê meus brinquedos, mamãe?

– Filha, a mamãe guardou suas bonecas e coisas de casinha, escolinha, dentro dessa caixona grande aqui.

– E pra que essa estante gigante?

– Você agora é uma mulher, lembra?

– Sim, mas…e agora? Eu vou cuidar de que?

– Do que você quiser.

– Mas e se eu não quiser cuidar de nada?

– Você vai fazer o que quiser, meu anjo. Aqui nessa estante, eu quero que você colo que tudo o que você é ou quer ser. Por que  isso, sim, é ser mulher. É escolher fazer o que você quer e, simplesmente, fazer.

A menina abriu um grande sorriso e a mãe, com um sentimento meio amargo, foi para a cozinha, viver a vida que tinha sido ensinada a ela, de cuidar de outros e, depois, se desse tempo, pensar em si.

Em pouco tempo, sua filha cutucou o avental.

– Eu coloquei uma coisa na estante, mamãe. Quer ver? – a mãe seguiu a menina, achando que ia ser um livro ou desenho. E ficou pasma quando viu seu porta-retrato.

– Minha foto, filha?

– Eu ainda não sei o que eu quero direito, mamãe. Mas, com certeza, eu quero ser mulher igual você.

A mãe sorriu. E sorrindo voltou a cozinhar.

 

A todas aquelas que, mesmo sem saber, ensinam a ser mulher.

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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