Viagem no tempo

“Dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo”, diz a física. Mas, pode o contrário ser verdadeiro? O mesmo corpo pode ocupar dois lugares diferentes simultaneamente? A física quântica diz que sim. Por mais que pareça confuso, uma coisa é simples: a mente pode ocupar dois, três ou mil lugares ao mesmo tempo, com certeza.

Valéria, que não fazia parte de nenhum experimento científico, muito menos foi conhecida pela ciência, era uma prova concreta que confirmava essa última tese. Focada no trabalho no escritório de engenharia civil, não podia desviar um milímetro de sua atenção dos cálculos tão exatos. Suas viagens, como boa sistemática que era, tinham hora para começar e terminar, mas iam longe.

Tão longe que ela se perguntava, quando era surpreendida por um colega inconveniente em plena hora de almoço, se algum dia sua mente demoraria muito a voltar. Entrar novamente no tempo e espaço que seu corpo ocupava no momento da interrupção. O bater na porta aberta funcionava como aquele estalar de dedos que nos faz retornar à realidade.

_ Que susto, Baltazar. É urgente? Meu almoço termina as 13h55.

E saía Baltazar, ou quem quer que fosse, sabendo que só seria recebido depois.Viagem no tempo e es 1

Reclinada em sua cadeira a 45 graus em relação ao vidro da janela, não creio que ela começasse seus devaneios de propósito, ou que sua mente tivesse um roteiro pré-determinado. Por ser descanso, quando via, estava pensando, divagando, planejando coisas que jamais poderia fazer, desistindo de outras, trocando hipóteses, com os olhos nos prédios vizinhos a perder de vista. Perdendo-se entre eles, sua mente voava livre da sala no 15° andar.

Personagens aos montes, diálogos que jamais iriam ocorrer, cenários impossíveis. Um mundo inexato, fantasioso, cheio de possibilidades. Um lugar confortável, bom e seguro, na cadeira em mesmo ângulo e horário todos os dias. Onde toda a sua exatidão a permitia estar, com a mente, ocupando tudo e nada, ao mesmo tempo.

Andressa Vilela

Sobre Andressa Vilela

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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