V de pai

A, B, C, D… V de vô. Ou  seria de pai? A ansiedade dele permitira que apenas quatro letras antecedessem a consoante V por causa da demora em chegar na vigésima primeira letra do alfabeto. A vontade que a primeira palavrinha falada por ela fosse ‘vô’, era mais forte que a paciência de esperar a idade certa para transmitir tal conhecimento. Nada de voinho, vozinho. Grande demais. Era vô mesmo. Quem sabe na hora do vruuuuuuu do aviãozinho da papinha, a sonhada palavrinha saíra. Pequenina no nome, mas enorme em significações.

Batizado da menina. Em nome do pai, do filho e do espírito santo. E lá estava ele a segurá-la e assumindo o compromisso de guiá-la na fé em Cristo. Frase da infância?

– Crisssssto é o caminho, a verdade e a vida.

É, além de avô, padrinho. Seu maior presente? Fazê-la acreditar que ter fé é colocar Jesus Cristo na frente de tudo e de todos. E  com fé, esperança e amor tudo é possível concretizar. Semente plantada. Agora é esperar germinar.

Primeiro ano de vida… Jujubas eram as principais responsáveis por aquela miniatura de boca não parar de movimentar-se. Alguém para controlar? Muitas. Mas, para que a alegria dos saborosos doces permanecesse naquele projeto de paladar, apenas ele para apoiar.

– Deixa a bichinha comer. É aniversário dela. Naquele momento a palavra festa fazia todo sentido.
Aos seis anos, muitos aprendizados e algumas astúcias também. Com ele apreendera a nadar em um mar disponível durante toda a infância, a pedir a benção ao acordar e na hora de dormir. A rezar a oração do Santo Anjo numa esteira de palha que ele dormira todas as noites na sala, afinal, ela e os dois irmãos menores ocupara a cama dele junto com a mãe, sua filha, recém divorciada que tentara reconstruir a vida.

Na hora que a mãe tentava puni-la com algumas chineladas, a corrida para junto dele era certa.

– Para quê tanta soberba com a menina?

Soberba nada. Ela logo descobrira que para garantir um “couro” frio (mesmo sem merecer), bastava lançar o olhar à moda Gato de Botas (e olha que Sherek nem existia na época), para que a autoridade da mãe fosse invalidada.  A tática era infalível. Ela estava crescendo… e ficando mais danada também! Era a fase.
Cordéis, repentes e improvisos. Com ele tudo acabava em versos e cantorias…

“Tenho a Daniella Karla
E tenho Danilo César
E a Jéssica Victória pra fazer a redação…

Eu vou viajar de carro
E volto de avião
E com a viola no peito
Eu vou cantando o “oitoquadrão”.

Poesia na essência. Mesmo só tendo estudado até a terceira série do colegial, era na faculdade da vida vivida que ele aprendera a transmitir conhecimento e a inspirar muita gente. 

O termo Carpe Diem poderia defini-lo bem, mesmo que não tivesse noção do significado.

“… A poesia é um dom
Da divina providência
O poeta é receptor
Declama com eleoquência
Animando a plateia
Com a sua competência …”

 

Mais que dominar as palavras, um verdadeiro poeta é capaz de sentir e transmitir os sentimentos mais profundos da alma.

– Poesia, poeta. Poeta, poesia.
– Muito prazer!

A luta e os valores do homem campestre também fizeram parte dele. Para o homem que trabalha na terra, a terra é o progresso, é a segurança, é a liberdade. O camponês que não tiver estas três coisas não tem nada. E foi no sindicalismo rural que tais valores foram transmitidos e responsáveis por prover o sustento da família numa época em que o nome sindicato era sinônimo de coletividade e não valia muitos tostões. Cinquenta anos de vida fora dedicado à causa, que como folhas secas desprendidas das árvores, se foram junto com o vento. O sindicato que criara tinha esquecido de onde viera. A desilusão foi inevitável.

E a menina, onde estava nisso tudo? Ouvindo, observando, aprendendo. Fez primeira comunhão, mas não se crismou. Apresentou o primeiro dos muitos namorados, deu algumas dores de cabeça e ouviu muito sermão. Dançou com ele a valsa da alfabetização, da festa dos 15 anos, da conclusão da faculdade. Cresceu, virou mulher.

Na vida adulta abraçou a profissão de jornalista e, coincidência ou não do destino, virou uma poetisa-cordelista. Encontrou um pretendente que concordou pedir a mão dela em casamento (mesmo já usufruindo de outras partes do corpo) e a realizar a cerimônia na igreja só para ver feliz o homem que foi o verdadeiro pai daquela por quem o futuro marido se apaixonara. E nove dias antes de concretizar o sonho, Deus o chamou para a vida eterna.

– Você vai ter que fazer, viu?

O casamento aconteceu. No caminho ao altar, uma forte energia. Não mais a física, mas aquela que ele ensinara à menina-mulher durante toda a vida: fé, esperança e o amor que finalmente germinara.

Daniella, a intensa

Sobre Daniella, a intensa

Para viver preciso acreditar nos sentimentos mais profundos que a alma humana pode oferecer. O infinito para mim é bastante atraente e o "meio termo" praticamente não existe. Tenho uma alma intensa, carismática, dramática. E é com toda essa intensidade que procuro dar o meu melhor como mãe, esposa, filha, irmã, amiga, jornalista, poetisa!

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