Uma voz para Harambe

Uma voz para Harambe 1

Eu era muito pequeno quando fui separado de minha família. Já faz 17 anos, mas não me esqueço do olhar de minha mãe quando aqueles homens me tiraram de seus braços. Eu nunca mais a vi desde então.

Cresci e me tornei um adulto forte de 180 kg, vivendo em lugares muito diferentes de onde eu nasci. No começo não entendia muito bem porque todas aquelas pessoas me olhavam e tiravam fotos, acenavam e assoviavam dia após dia, todos os dias de minha vida. Eu cheguei a pensar que era especial, pois eles ficavam tão alegres em me ver! Mas apesar disso, eu nunca fui feliz de verdade.

Eu me sentia muito sozinho… sem ninguém da minha espécie para conversar, sem amigos para brincar, sem árvores para escalar, sem espaço para correr e explorar…

Tinha dias que a solidão era tanta que eu me deitava no chão de concreto e olhava os pássaros sobrevoando minha jaula. Imaginava que eles levariam meus pensamentos até minha mãe e irmãos. Onde eles estivessem agora, saberiam do amor grande que sempre senti.

Eu já não tinha mais esperança de revê-los. Pensar em minha casa e minha família era como um sonho bom que eu ficava alimentando e criando situações que eu sabia que jamais aconteceriam.

Eu tive muito tempo para pensar, tempo demais! E neste tempo todo eu pensei em que mal fiz para merecer este destino? Privado da minha liberdade, dos meus instintos e da minha vida! Eu fui condenado a prisão perpétua e nunca soube qual foi meu crime.

Até que aquele dia chegou… um dia mudou a minha vida para sempre. Era um sábado ensolarado e muitas pessoas tinham vindo me ver. Eu estava comendo minhas frutinhas quando um filhote de humano caiu na minha jaula. Fiquei tão confuso e feliz ao mesmo tempo!

Finalmente eu teria uma companhia…. mas ele parecia tão pequeno e frágil que eu só pensei em protegê-lo. Peguei sua mão e instintivamente corri para tira-lo dali, da mesma forma que minha mãe faria comigo. Depois me dei conta que não tinha para onde fugir… As pessoas gritavam o tempo todo! Fiquei assustado e ainda mais confuso. Então parei, segurei o filhote e a última lembrança que tenho é da admiração que senti ao ver e tocar outro ser tão diferente e ao mesmo tempo tão parecido comigo.

Logo depois algo penetrou minha carne causando dor….segundos depois eu não sentia mais nada. Meu corpo ficou leve e eu só sentia a água molhar minhas costas de pelagem prateada.

Fui condenado a pena de morte e morri sem saber qual foi meu crime.

Enfim estou livre.

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Em memória do gorila Harambe, assassinado a tiros após uma criança de quatro anos cair em sua jaula, no zoológico de Cincinnati nos Estados Unidos.

Mariana, a sensível

Sobre Mariana, a sensível

Sou apaixonada por tudo que se move ou move algo dentro de mim. O diferente me fascina e o improvável me desafia a querer me superar em todos os sentidos. De modo geral, acredito nos ensinamentos do mestre Mahatma Gandhi: de modo suave, você pode sacudir o mundo.

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