Uma Academia nada selvagem

Foto: Christopher McCandless Official Website

Que, em geral, os prêmios da Academia são contestados não é novidade para ninguém que acompanhe minimamente o cinema. Mas sempre fica certo ressentimento quando vemos algo com potencial para ser eternizado com muitos prêmios caindo nas obscuridades do cult ou ainda do esquecimento. É o caso de “Na Natureza Selvagem”, filme de 2007.

A obra-prima de Jon Krakauer, Sean Penn e Emile Hirsch, é uma combinação fascinante entre história real, atuação impecável, roteiro certeiro e pesquisa jornalística afiada. O resultado, como não poderia deixar de ser, é uma narrativa tão fascinante e impactante que deixa o espectador boquiaberto.

“Na Natureza Selvagem” narra parte da vida intensamente vivida de Chris McCandless, um jovem americano de classe média alta que, aparentemente, tem exatamente a vida que todos nós almejamos hoje em dia: conclui a faculdade com êxito e méritos (o coeficiente de notas que vai até 4 foi concluído com respeitáveis 3,72, de acordo com o livro de Jon Krakauer, base para o roteiro de Sean Penn); tem mais de 20 mil dólares sobressalentes na poupança, pode ingressar em Direito em Harvard e tem uma família tradicional e rica, disposta a apoiá-lo. Misteriosamente, ele doa sua pequena fortuna, e desaparece com seu Datsun velho Estados Unidos a dentro vivendo sob o pseudônimo de Alex Supertramp em uma jornada de libertação, desapego e autodescobrimento com um final extremamente agridoce.

O impacto vem ora das paisagens muito bem capturadas, ora da fidelidade com os fatos (mérito da pesquisa impecável de Krakauer no livro homônimo, e de Sean Penn, que roteiriza, produz e dirige o longa): o Chris de Emile Hirsch é parecido tanto fisicamente quanto em trejeitos com o McCandless real e o ator traduz brilhantemente o desprezo do jovem pelo materialismo da sociedade norte-americana. Isso sem falar na trilha sonora na voz de Eddie Vedder, que não poderia encaixar mais com a história, e no trabalho dos coadjuvantes (Hal Holbrook, Vince Vaughn, e, pasme, Kristen Stewart). Trata-se, de fato, de uma preciosidade daquelas que surgem uma vez na vida, principalmente pelo fato de que há poucas pessoas com vidas tão dramáticas e entusiasmantes quanto às de Chris McCandless.

E é uma pena que, naquele ano, os grandes prêmios do cinema tenham dado tão pouca atenção à adaptação – foi o ano de Javier Bardem e “Onde os Fracos não Têm Vez”. É um daqueles filmes que, por força das circunstâncias, acaba se perpetuando hoje apenas por indicações daqueles mais fanáticos por histórias reais, reflexivas, bem produzidas e relativamente pouco famosas.

Considere-se convidado a assistir o filme e ler o livro.

 

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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