Um tempo que não volta, mas não passa…

Sem hora marcada nem lugar, lembranças e recordações da minha infância e da minha família me revisitam e garantem momentos de pura afetividade, saudosismo, doses de melancolia, saudades e a certeza de que o tempo não conseguem mudar sentimentos, nem apagar o que está cravado em nosso corpo e em nossa história pessoal.
Na minha memória, voltam encontros, dias de festas, minhas origens, cenários, sons, sensações, cheiros, sabores, datas e dores. Momentos que misturam o profano e o sagrado, risos e lágrimas, feitos e derrotas, comemorações. Tudo gira em torno de uma boa mesa, regada de comes e bebes, onde a figura da minha mãe sempre centralizou as atenções.

Ela repetiu os passos de seu pai, que não abria mão da família reunida semanalmente. Ele teve uma vida longeva e saudável até o dia de sua morte aos 101 anos, o que nos permitia apostar: ele chegaria aos 120, brincando! Era o máximo um avô que nascera no Século XIX, viveu quase todo o Século XX e quase entrou no XXI. Faltou pouco mesmo para o feito.
Vô Juca tinha sempre histórias da escravidão vivida pelos seus avós para narrar, contos assombrosos para assustar os netos e fazê-los dormir mais cedo.  Nos anos 80, aos 85 anos, ele veio morar em nossa casa, que virou a casa do Vô Juca para o resto da família – local de ponto de encontro, de comer, de rezar, de festejar por quaisquer motivos ou sem eles. Essa casa é hoje da sua filha mais velha, Maria. Mãe, avó, tia, irmã, cunhada, sogra, em qualquer papel, ela continua a reunir a família, repetindo seus gestos e ritos aos domingos, feriados, ou em dia não marcado. Todos encontram ali um porto alegre, um porto seguro; e buscam retribuir com mimos e carinho tanta afetividade.

Esse texto foi originalmente publicado numa exposição sobre o tempo e o envelhecer, em 2013, na Unicamp, onde um grupo de estudantes buscou na memória da sua família mostrar o passar dos dias.

E por falar no passar do tempo, fecho com a reflexão de Eduardo Gianetti, no livro “O Valor do amanhã”:

O que valeria escolher – pôr mais vida em nossos anos” ou (quiçá) “mais anos em nossas vidas?”. Para todos pensarem.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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