Tudo puta? Pare de banalizar o absurdo

Eu sei que é desconfortável falar sobre isso, ler sobre isso, pensar, inclusive. Mas é necessário. Precisamos, pois a cada vez que nos informamos melhor, ajudamos um pouquinho a desconstruir a cultura que a gente não apoia, não concorda e que nos deixa indignados. Pode parecer um trabalho de formiguinha, que você não tem como ajudar, mas tem. Saia um pouco de sua zona de conforto para conversarmos sobre este assunto, infelizmente tão presente em nossa sociedade. O tema hoje é estupro e violência.Tudo puta - Pare de banalizar o absurdo 2

Nos últimos dias o estupro tem sido bastante falado em todo o Brasil, mas, por mais que pareça repetitivo, ainda não é o suficiente. Já parou para pensar que você pode estar ajudando a normalizar um crime hediondo? Citemos exemplos: jogar a culpa na vítima para aliviar sua consciência quando sabe de um caso. Julgar quem você não conhece pela forma como se veste, lugares que frequenta. Fazer comentários preconceituosos, racistas ou machistas. Trair ou ajudar a trair, trapacear, mentir. São tantas formas de hipocrisia da sociedade. O que isso tem a ver com o estupro? Analisemos por partes.

Quanto de culpa é colocada em cima dos outros para não termos que não nos sentir mal, não é mesmo? Pensar: “Ah, mas ela queria, ela era vulgar, vai que ela consentiu, estava andando à noite sozinha, não prestou atenção, estava com roupas curtas” são apenas um jeito de aliviar nossa própria dor. Mas isso não ajuda em nada. Pare para pensar. Nada disso interessa. O que importa é que houve um crime. Quantas mulheres passam por isso. Quantas crianças. É preciso haver justiça e enquanto não quisermos sofrer e continuarmos a culpar as vítimas, os casos só vão aumentar baseados na impunidade. Temos de nos revoltar. Temos que falar sobre isso. Temos que parar de reproduzir o mal, no mínimo.

E quanto deste mal, desta violência você tem disseminado? Um exemplo interessante de como apoiamos a monstruosidade no dia a dia é um vídeo que circulou na Internet aparentemente inofensivo. Nele, foram compiladas entrevistas com mulheres que haviam posado nuas e queriam divulgar suas revistas. A cada frase um menino de aparentemente 5 anos dizia: “Tudo puta”. Tudo puta - Pare de banalizar o absurdo 3

Nos primeiros segundos de vídeo confesso que ‘torci o nariz’ para estas mulheres. Mas, logo me veio a pergunta para me voltar à sanidade: “Por que uma criança do sexo masculino está no meio de um vídeo falando ‘tudo puta’ como se isso fosse o máximo? ”. Ensinaram esse menino a tratar as mulheres desta forma. Muitos outros adultos e adultas estão compartilhando o vídeo e espalhando por aí a frase. É correto tratar mulheres assim, estejam elas fazendo o que for? Pior, é correto ensinar uma criança a tratá-las assim? Que tipo de adulto irá se tornar?

Quanto deste tipo de pensamento você anda compartilhando em sua casa, ou rede social? Isso é espalhar a violência e o desrespeito ao ser humano. E quantos outros desrespeitos temos. Já percebeu como as novelas mostram que a traição do homem em relação à mulher é normal? Que os homens quando traem se dão bem, geralmente com mulheres muito mais novas que eles? E que as mulheres, quando se relacionam com algum homem mais novo geralmente se dão mal, pois estavam apenas sendo enganadas? Já notou como muitas músicas falam com desrespeito às mulheres, até em violência mesmo, sem nenhum pudor?

Para todos os leitores, faço um apelo: não espalhem mais pensamentos deste tipo. Isso incentiva a cultura do estupro, sim, pois coloca a mulher como descartável, como um ser diminuído que não merece respeito. Pessoas que espalham este pensamento não pensam em suas mães, irmãs, tias, avós?

Sem contar outros tipos de frases e pensamentos que diminuem outras classes. Por que você fala que o cabelo é ruim? Ele fez mal para alguém? Cabelo pode ser liso, enrolado, crespo. Por que diz a inveja é branca? Por acaso ela tem cor? Ela pode ser inveja boa ou ruim, não colorida. Mas isso é assunto para outro texto.

Para as mulheres, faço outro apelo em particular: vamos nos unir. Não ajude a espalhar o mal. Não ajude a julgar. Não ajude a trair. Não ajude a perpetuar a falta de respeito contra nós. Isso não é ser ‘politicamente correto’, ou ‘chato’. É cuidar de nós mesmos, de nossos parentes, do mundo que está aí evoluindo com tanta impunidade. E isso começa dentro da nossa cabeça, dentro de casa, nos nossos smartphones, no que escolhemos ver e ouvir.

Das muitas músicas que falam de violência contra a mulher, uma em particular me chamou a atenção pois eu não tinha reparado na gravidade da mensagem. Achei que fosse só mais uma música que fazia apologia ao sexo. Até que ouvi a versão fantástica de Mariana Nolasco e vi como a lavagem cerebral é grande e, se não prestarmos atenção, realmente banalizamos o absurdo.

Deixo o link abaixo. E que mais homens queiram “florir com a vida delas”.

 

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *