Tempos extremos

Tudo bem que o carnaval passou, mas quero colocar a raiva na avenida. Não tem a ver com mau humor, mas com a consciência do nosso tempo. Na verdade, a falta dela.

Já parou para pensar o que dá raiva hoje em dia? Dava para escrever uma enciclopédia, uma constituição, uma bíblia ou até montar uma biblioteca, não é mesmo? Mas em tempos em que a chatice impera, é preciso um esforço para não ser mais um a integrar o muro das lamentações. Vou colocar o que mais me aflige agora – e posso garantir que será rápido.

Alguns vão dizer (e eu concordo), que o mundo está de mau humor. Já percebeu quanta gente já amanhece de cara fechada? É de acabar! Ter a chance de acordar e ficar de cara feia não dá para encarar mesmo.

O descaso em qualquer área também tá difícil de engolir: na saúde, na educação, na segurança – ninguém aguenta mais isso.Também não suporto preguiça. Deixar para depois é normal – mas é bom usar a moderação. Procrastinar é da nossa cultura; mas têm aqueles que não fazem nada é nunca mesmo, e isso é insuportável!

Esperar que a política seja o império da verdade, também acho uma ingenuidade irritante; e acreditar que a corrupção no Brasil é uma jovem ou adolescente, que surgiu há uns 15 anos, é de morrer de raiva pela falta das aulas de história.

Achar que é possível ter e dar opinião sobre tudo dá uma vontade de gongar. Cansaaaaa! É de pirar a superficialidade travestida de conhecimento.

E claro, tem coisa ainda pior: ir com a galera, fazer parte da manada – coisas que as redes sociais mostram a toda hora. Colocar a crise na frente de todas as frases também já deu e não aceitar opinião diferente, pra mim, é coisa de nazista. O campo mais fértil para evidenciar isso é a política. Basta tentar fazer qualquer análise que não seja igual a do seu interlocutor para que a guerra seja instalada.

Vivemos tempos de pura piração, extremos. E pensar que a gente batalhou tanto pelo diálogo, pelas liberdades. Parece que nadamos muito para morrer na praia. É para transbordar de cólera.

Mas ainda não dá para parar aqui: faltou na lista, citar a questão religiosa, que tem contornado todos os temas: aborto merece o inferno; bebida é a perdição; doação de sangue é contaminação; homossexualismo é coisa do demônio, discutir gênero é o mesmo que xingar a mãe. #somos todos hereges!

Alguns vão vociferar: a minha religião salva! – só a minha! Por Alá, vão cabeças! Sim, os homens-deuses matam, sem clemência. Essa religiosidade atual nos aniquila. Ela própria é o verdadeiro castigo – talvez, o maior deles.

Que a aridez da minha primeira conversa de 2016 não faça vocês me colocarem na lista de coisas que odeiam. É bom estar de volta!

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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