Tempo, tempo, tempo, tempo…

Ninguém quer a morte, só saúde e sorte. Bem dizia Gonzaguinha. E se faltarem a sorte e a saúde, ainda assim a gente quer viver e ser feliz. Somos loucos pela vida. Amamos tudo isso. Envelhecemos desde o primeiro respiro, mas é preciso que passem o tempo, os anos, as décadas, para percebermos aquilo que acontece todos os dias, a cada instante.

Mais que de repente a infância e a juventude ficam nos retrovisores da vida; e chega a maturidade. Piscamos os olhos e percebemos as marcas do tempo no corpo e na alma. Envelhecemos! O tempo é tão implacável, que nada podemos fazer, a não ser senti-lo e aproveitá-lo intensamente. Afinal, as coisas fundamentais se aplicam, com o passar do tempo, como na trilha sonora de Casablanca.

Olho para as crianças e vejo todas crescerem. Olho para os adultos e avisto o entardecer, o crepúsculo e o anoitecer se aproximando. Olho para mim mesma e já percebo um outro ser. E os questionamentos afloram: envelhecer é doloroso? Limitante? Ou inimaginável é não permitir-se experimentar isso, pois se não envelhecemos deixamos de viver?  Ou o envelhecer é o acumular de experiências que mais tarde poderão – ou não – ser usadas de forma mais assertiva? O que pra muitos são sentenças afirmativas, pra mim são interrogações; ainda que, claro,  envelhecer é declinar-se. É se aproximar do fim. E são essas certezas e ideias de finitude e senescência que nos sufocam e nos atormentam.

Infelizmente, ainda não experimentamos a fórmula da existência eterna. Taí descoberta ou invenção que – imagino – não acessaremos tão cedo; em que se pese ampliarmos, de tempo em tempo, de forma significativa, a longevidade em todo o planeta. A ciência afirma que as novas gerações ultrapassarão com fôlego os 130 anos – melhor impossível!?

Como sou de uma família longeva, e quase todo mundo passa dos 80, além de registrarmos alguns centenários, me apego ao fato que, tirando os sustos e o imponderável, todos aqueles que amo muito – e até eu mesma – vamos longe ainda. O melhor é pensar assim. Ainda que seja mero discurso.

Mas há um momento da vida que passamos a  sentir, de forma latente e angustiante, que o tempo não para mesmo, como já afirmara Cazuza. Ou muito além, coloca Caetano: “o tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece”. E, também, passamos a perceber que não temos mais o tempo que passou, como poetizou Renato Russo. Ou ainda, como diria Mário Quintana:

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é Natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê passaram 50 anos!

Não temos nada a fazer, a não ser viver o nosso tempo, que escorre e que escassa. Fernando Pessoa coloca “o próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela.”

Sei de tanta gente que tem tanto medo de morrer que praticamente não vive. Não viaja, não corre riscos, vê ameaças onde não existem. Consegue o feito de parar a vida, retardar seu atos para um futuro que não se sabe se existirá. Finge que pode parar os ponteiros do tempo e o  tic-tac biológico, com o deixar para depois. E isso tudo me assusta. Se pudesse aconselhá-las, diria, ouçam mais o poetinha Vinícius de Morais:

Quem já passou por essa vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.

É claro que cada ser é único e feliz com aquilo que acredita, mas não consigo apostar nesta filosofia do mínimo esforço, do risco reduzido. Todas as minhas fichas vão para o acrescentar vida aos nossos anos e não apenas anos em nossas vidas – mesmo porque não temos governabilidade nenhuma  sobre ampliar o tempo. Agora, fazer da vida uma grande festa é tarefa ao alcance de todos, fazer do tempo o melhor dos tempos, também, é possível.

Para justificar o tom, todas as poesias e frases emprestadas neste texto foram usadas com intuito de indicar ou sugerir uma leitura: O valor do amanhã, de Eduardo Giannetti. Trata-se de um Ensaio sobre a natureza dos juros – intertítulo da obra.

Aviso aos navegantes que vão mergulhar neste mar. Apesar da aridez que o tema possa aparentar ou remeter (juros, principal, restituição, poupança, acumulação) nunca antes havia lido nada tão profundo sobre a vida e o envelhecer – uma construção perfeita, simples, com comparações incríveis que recheiam cada página. Com certeza, após a leitura, passei a entender um pouco mais sobre economia e muito mais sobre a vida. Como tempo também é dinheiro, invista o seu tempo nesta obra. Vale a pena!

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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