Telefone com Amarula


 

Peguei o telefone. Olhei pra ele. Coloquei de volta no gancho. Eu não ia ligar. Tinha dito que não ia ligar e não vou ligar. Tenha o mínimo de amor próprio, seu babaca! Ela não vai valorizar você se ficar se arrastando desse jeito! Não vai ligar e ponto final!

Sentei de novo no sofá. Olhei à minha volta e vi aquele apartamento vazio, sem cor. Um apartamento de homem sem uma mulher é cinzento, sabia? É, sim. Fica sem graça. Mulher é como flor: enfeita, perfuma e dá sentido a várias coisas que acontecem na natureza. E a minha casa parece mais uma tundra: sem vegetação aparente, sem calor e sem luz.

Minha garganta secou de repente. Olhei de relance para a garrafa de Amarula. Tinha ganho numa rifa que comprei da minha sobrinha. Comprei pra ajudar na formatura e só porque é uma coisa que eu não posso e não quero mais beber, claro que eu ganhei a bendita Amarula. Um nome perigoso de bebida para um homem carente. Amarula junta o efeito do álcool com o nome de uma mulher. Amarula pra mim sempre será o nome de uma mulher latina, que dança salsa.

Continuei flertando com a garrafa. Mas sabia que não podia fazer aquilo. Tinha perdido você pra Amarula e para todas as amigas dela: a Cerveja, a Cachaça, e a mãe de todas elas, a Bebida. Tinha perdido você, sem querer, é claro, para todas elas. Mas tinha passado. Eu me curei. Eu estava bem, agora. Você só não sabia disso. E se eu não ligasse, também não ia saber.

Mas, também, pensei, será que você queria saber? E mais, será que eu tinha o direito de querer que você soubesse? Não sei se podia ser tão atrevido. Dependendo do que causamos na vida de alguém podemos ou não esperar que sintam nossa falta, lembrem nosso nome ou ainda desejem nossa presença. E não tenho certeza de que o que te causei não foi tão ruim a ponto de você ter o direito divino de simplesmente não se interessar. Na verdade, eu acredito que não se interessar é um dom. Eu nunca o tive. Sempre me interessei, sempre quis saber. Sempre me intrometi, sempre participei, sempre quis. Mas você, brilhante como é, deve ser dotada do dom de não se interessar, de não se importar. Trocaria um terço de seus neurônios por meio coração, só para que, se eu ligasse, você me ouvisse com um mínimo de atenção e compaixão por alguém que se tornou invisível aos olhos de quem é tudo pra ele.

Queria que você pudesse entender que nunca minha intenção fora algo semelhante a te subjugar e que eu sempre soube o quanto você perdia cada instante do seu tempo comigo e lutando por mim como ninguém ousaria admitir sequer ter coragem de fazer. Queria que você soubesse o quanto sou grato por cada vez que, com as lágrimas escorrendo pelo rosto você me ajudava a entrar em casa e cuidava de alguém que estava no estado mais deplorável que um ser humano pode chegar. Era degradante e a cada momento em que eu perdia o controle, me envergonhava de mim mesmo e parte de mim se desfazia por, muitas vezes, não poder ser. Sou capaz de afirmar que nenhum homem está preparado para não ser. Somos moldados a vida toda para ser, suprir, criar e fazer. A impotência é algo que atinge a todos nós um dia, de uma forma ou de outra. Mas pesa de forma diferente para um homem.

Aquele telefone não parava de me olhar. E eu lembrava das reuniões do AA, que me diziam que um dos passos era sabermos que merecíamos uma nova chance. Eu nunca achei que merecia uma. Na verdade, muitas vezes bebi mais, na esperança de que algo terrível acontecesse, para me castigar por ser tão ruim para quem eu amava tanto. Tinha sonhos em que era atropelado por carros, caminhonetes e até por ônibus. Você não sabia disso. E eu queria que você soubesse. Só não queria ter que te contar.

Eu queria mesmo era que minha vida se transformasse no filme por alguns dias: eu trombaria com você na rua, de terno, saindo de uma entrevista de trabalho, e você olharia pra mim, surpresa e diria que eu estou diferente. Eu daria aquele sorrisinho de lado, como se não soubesse que mudei de verdade, e diria que as coisas estavam melhores e ficaria reticente. Compreensiva e perspicaz, você saberia, por instinto, que eu tinha conhecido as profundezas mais escuras de uma caverna em que muitos entram e poucos saem. E então, você sorriria pra mim. Eu sorriria de volta e perguntaria da sua vida. Você diria que continua trabalhando no jornal e que, agora, faz entrevistas brilhantes e é muito reconhecida no meio – coisa que deveria ter sido desde sempre. Eu parabenizaria e depois de mais um papinho, finalmente eu diria que ia ter que pegar o ônibus e pediria seu telefone, pra nós marcarmos alguma coisa. E, pra deixar já claro o que eu que eu queria que você soubesse: “A gente sai pra tomar uma coca e comer uma batatinha”. Me inclino, te dou um beijo no rosto de despedida e vou em direção ao ponto de ônibus, sentindo que você continua me olhando e sei que aquilo pode ter sido nosso recomeço.

Mas minha vida não é um filme. Essa coisa de “unidos pelo destino” simplesmente não vai acontecer. Se eu quiser que algo aconteça, eu tenho que dar o primeiro passo. Eu não sei quantas vezes ouvi essa coisa de primeiro passo, mas em todas as vezes senti que era verdade e que havia razão de ser naquilo. Essa coisa de iniciativa, quando não nasce com você, demora pra ser gerada completamente no seu caráter.

Peguei o telefone. Disquei. Meu coração ficou acelerado e eu até olhei para a janela, para não ver a garrafa. Tocou. Tocou.

Caiu na secretária eletrônica.

“Oi, você ligou pra Clara Guedes, mas que pena, eu não posso te atender agora.”

Era sua voz, a mesma de sempre, com timbre alto, que só podia ser de alguém sensível que teima em fazer de conta que não é. Você tinha a sutilidade mais bruta que eu já tinha visto. Me distraí e nem percebi que a mensagem continuou. Quando me dei conta, ouvi outra voz:

“Ou você ligou para Richard Drummond. Só que eu também não estou podendo te atender.”

Juntos, pediam para que o ouvinte deixasse um recado. O telefone caiu da minha mão e por longos segundos, eu parei. Tudo no meu corpo entrou em pane, em pause e simplesmente não funcionava mais. Não respirei, meu coração não bombeou sangue e a cor se esvaiu do meu rosto. Tudo em vão, tudo acabado. Logo agora. O fim.

Depois, senti que tudo voltava com a intensidade de uma erupção vulcânica. Raiva e vergonha se misturaram e quando eu percebi, estava na rua, com meu casaco e a carteira. As lágrimas caiam pelo meu rosto, desciam pelo pescoço e molhavam a camiseta velha dos Rolling Stones. Frustração. Tristeza. Raiva. Vergonha. Medo. Depressão. Infelicidade. Desejo de fuga. Vontade de desaparecer.

Corri para o primeiro bar que encontrei e comecei com uma garrafa de vodka pura.

Tomei inteira. Foi tão rápido que eu nem consegui me sentir mal pela primeira recaída em um ano limpo.

Estava tão agitado que depois da primeira garrafa eu ainda estava plenamente consciente. Lembrava de tudo, sentia tudo e esse tudo incluía aquela secretária eletrônica.

Pedi uísque. Esse ia funcionar. Smirnoff podia não dar jeito. Mas não havia nada que Jack Daniels não me fizesse esquecer.

Bebi inteira. Foi rápido. Comecei a alucinar, mas sabia que aquilo que eu via não era verdade. Tinha visões dela com algum médico bem-sucedido, proporcionando momentos de conforto e fazendo por ela o que eu nunca tinha conseguido: oferecendo carinho, atenção e segurança.

Bebi mais. Comecei a ficar inconsciente.

Meus sonhos voltaram. Eu moro em São Paulo e a coisa mais fácil seria conseguir ser atropelado. A cidade tem mesmo carros saindo pelas orelhas, em algum lugar, um deles vai me acertar.

Queria que fosse grande, queria que não sobrasse nada. Queria que tudo acabasse.

Saí do bar com a garrafa e via pessoas me olhando de um jeito familiar na rua. “Olha aquele bêbado”, elas diriam, “se acabando e tão jovem…mal sabe ele como vai se prejudicar com estes deslizes”. O que ninguém entendia é que era essa a idéia. Era ser nocivo a mim mesmo.

Parei na beirada da rua, e me concentrei. Olhei pra cima e pedi o que eu queria. Coloquei o pé na rua. Dei um ou dois passos. Olhei para a minha direita. E vi a esperança chegando em forma de luz de caminhão. Suspirei e fechei os olhos.

Noticiário

 

Gilberto Ferraz, um importante músico, compositor de inúmeras trilhas sonoras nacionais famosas, 30 anos, foi atropelado na Avenida do Estado, hoje, por um caminhão e faleceu. O artista, que há algum tempo admitiu sofrer de alcoolismo, estava muito embriagado e…

Clara estava estática na frente da televisão, ouvindo a notícia. Baixou a cabeça, sentindo a derrota nos ombros.

A campainha tocou enquanto a retrospectiva passava na TV. Era Richard.

“Posso usar seu telefone, Clara?” Ela assentiu “Algum recado pra mim?” Ela fez que não com a cabeça.

Ele usou o telefone e percebeu que ela estava transtornada. Ficou sem graça.

“Desculpe pelo incômodo, logo terei um telefone em casa e aí não precisarei mais ficar aqui, te alugando.”

Ela não respondeu. Ele olhou para a TV e viu a causa do silêncio da comunicativa comunicadora. Entendeu que não tinha nada a ver com emprestar o telefone.

“Sinto muito. Mas a gente sabia que um dia isso ia acontecer.” Ela levantou o olhar, enxugou as lágrimas e disse:

“É. Ia sim.”

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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