Sua visão está torta?

Pergunta rápida: se eu colocar aqui fotos de mulheres fora dos padrões de beleza da sociedade e te disser que elas não podem se sentir bonitas, nem fazer determinadas atividades por causa da aparência, você vai achar um absurdo, não é? Então, por que quando é com sua imagem no espelho você se permite fazer tantas críticas e se priva de tantas oportunidades?

Nos últimos tempos tem me chamado muito a atenção um antigo companheiro de nós mulheres: o descontentamento com o corpo. Não posso dizer que todas estão descontentes, generalizar é complicado, mas posso dizer que, pelo que vejo, grande parte está triste com alguma coisa. E eu não digo “não gosta”. Eu digo “está triste” mesmo. Em qualquer idade, peso, altura, cor, tipo de cabelo. Algumas empresas já perceberam isso, inclusive, e estão fazendo propagandas bacanas sobre autoestima; outras tentam e erram completamente.

A baixa autoestima está grande e, posso falar uma coisa? Isso não é futilidade. Ela atrapalha. Ela é perigosa. Para nós, mulheres, se sentir bem é de extrema necessidade. Tem a ver com felicidade, com se achar merecedora, por mais absurdo que possa parecer.

Assisti em um programa de tv a entrevista de uma jornalista alta, magra, loira, olhos azuis, que se encaixaria facilmente em diversos padrões de beleza. Ela revelou que tem um distúrbio, analisado por psicólogo, em que se vê gorda enquanto é magra e que não vai à praia por medo de julgamentos com seu corpo. Os homens ao redor a olhavam sem entender nada e com um ar de desconfiança como se não fosse sério o que ela estava dizendo. A apresentadora se voltou para um ator que estava no mesmo programa e perguntou: “você fez vários papeis em que aparecia sem camisa na televisão. Ficava preocupado em não estar com o físico bom o bastante? ”. A resposta dele: “Não”.

Os homens não passam por isso com tanta intensidade, por isso a maioria não nos entende muito bem nesse sentido. Não entende por que faz parte de nós nos arrumarmos, irmos ao salão, por exemplo. Sendo fotógrafa, quando conto para um deles como alguma mulher fica emocionada ao se ver bonita em uma foto, eles geralmente fazem cara de paisagem. Realmente não entendem a profundidade do que está acontecendo com nossa autoestima. Não os culpo, eles não sabem.

Sua visão está torta? 1

Você entende isso quando conversa francamente sobre o assunto e vê lágrimas de tristeza
nos olhos; vê pessoas desistindo de participar de atividades por causa do corpo; ouve comentários de que a pessoa não se acha digna de fazer alguma coisa por causa da aparência; tem confidências de que ela se sente escrava da maquiagem ou que não usa maquiagem alguma, apesar de gostar, por dizer “não vale a pena, não vou ficar bonita mesmo, isso não é para mim”. Sabe de regimes malucos, de cirurgias sem necessidade, de distúrbios mentais, ás vezes.

Assim você entende a gravidade e percebe a deficiência de amor que temos por alguma parte do nosso corpo ou até pelo conjunto todo. E aí você começa a achar absurdo aquelas mulheres, com suas belezas e características únicas, grandes personalidades, sucessos profissionais, vitoriosas na vida, corajosas, serem tão duras com si próprias. E começa a achar absurdo também os julgamentos e rótulos que põe em si mesma de vez em quando. E quer mudar. E quer ajudar outras mulheres a mudarem também. E podemos mudar, gente. Podemos nos amar hoje, cada pedacinho. Para ajudar o processo, tomemos algumas atitudes.

Repito, isso não é futilidade. Esse descontentamento não acontece porque só ligamos para a aparência. Mas sim porque existe, como muitas sabem, uma pressão que vem da tv, dos comerciais, outdoors, revistas, sites, enfim, para que a gente se ache feia e se sinta mal. A verdade é essa. Então de tanto bater, uma hora começa a furar. Eu sei que não é nossa culpa nos sentirmos assim, mas pense bem, permanecer assim, comprar essa ideia e andar com ela para cima e para baixo é, sim, nossa responsabilidade. Dá para mudar isso. Aos pouquinhos. Um esforço a cada dia.

Você pode estar pensando: “mas eu preciso me sentir bem com minha aparência, por quê? Qual a importância disto? ”. Se alguma vez já deixou de fazer algo, não quis sair de casa, usar determinada roupa, já se sentiu mal, só para citar alguns exemplos, por causa da aparência, a necessidade está aí. Agora, se sentir bonita não é mudar, necessariamente. É se sentir assim como você é. A mudança pode vir, sim, se for te fazer feliz, te fazer bem. Mas você não pode esperar para se permitir só quando perder aqueles quilinhos, fizer aquela cirurgia. Isso é um processo e a busca é válida se for o que você quer. Mas você pode, sim, se sentir bonita hoje, merecedora hoje, feliz hoje.

Como fazer isso? Que tal começar devagar? Não se negue tanto. Olhe-se no espelho, hoje. Permita-se existir em fotos, em festas, em reuniões de amigos, hoje. Se gosta de se cuidar, se cuide, hoje. Se gosta de dança, aulas são boas para nos fazer nos olharmos mais. Não tem tempo, dinheiro, tudo bem. Façamos o que é possível hoje e nos critiquemos menos. O que importa é olhar com mais carinho para si mesma e usar pequenos passinhos para isso. Ou um passo grandão de uma vez, se você quiser, se for para o bem, se for com amor e cuidado. Faça o que é possível, seja o possível muito ou pouco. A busca de nossa autoestima é válida e você é, sim, merecedora.

Andressa Vilela

Sobre Andressa Vilela

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *