Sobre Rousseau e 50 tons de cinza


  • De imediato, peço desculpas pela acidez. Não tem nada a ver com um “quem mexeu no meu cânone/tirem de perto de mim este livro que vende tanto”, mas com uma necessidade de expressar minha visão.

Uma das grandes febres literárias deste ano (e talvez até dos últimos, se desconsiderarmos as sagas adolescentes) é a trilogia ’50 tons de cinza’. Para que se tenha uma ideia do que é, de fato, uma febre, o livro já alcançou 100 mil exemplares vendidos no Brasil e vem caminhando para se tornar o maior livro britânico, em vendas, de todos os tempos. Sem dúvida, um imenso sucesso literário-comercial – e este crédito precisa ser dado à autora E. L. James. Ela achou um tipo de livro que estava em falta e esta lacuna gigantesca foi preenchida.

Mas agora vamos ao que interessa: do que é que fala um livro tão estrondosamente bem-sucedido? Seria a revelação de como a máfia funciona (assim como Gomorra, com “modestos” 4 milhões de livros vendidos mundialmente)? Um relato de uma mãe com sua filha portadora de Síndrome de Down (como Livro de Julieta )? Não. Classificado em diversas frentes como um “pornô para mamães” (dê um Google na expressão e verás!), trata-se, resumidamente, da história de Anastasia e Christian Grey. Ela, uma jovem, virgem, de 21 anos. Ele, um magnata bem-sucedido de 28. Dão-se os eventos de forma que ele e ela se envolvem em um contrato sexual, dando direitos a Grey de colocar todas as suas fantasias sádicas para fora.

Não vou bancar a reacionária e dizer que o que é “pavoroso” ou “obsceno” é o fato de que ele é sádico. Por favor: cada um com suas preferências! O que me deixa absolutamente chocada é o pressuposto feminino do livro: uma menina pura e cândida que se submete a todo tipo de jogo sexual pura e simplesmente por…quê? Pelos presentes? Pelo cavalheirismo dele? Por amor? Por ser inexperiente? Veja que entre todos os motivos não se encontra nenhum tipo de menção a amor-próprio. Ué, será que ela gosta de tomas uns tapas, ser amarrada, etc?  Curiosa, eu peguei um livro na Livraria Cultura e abri em uma página a esmo. Claro, uma cena de sexo de páginas. Na cena, ele estava dando tapas fortes – que faziam ela gritar de dor – e acariciava o local para depois bater de novo. Estava escrito – eu não estou pressupondo – que ela não estava aguentando. Não havia prazer por parte dela. Nenhum. Nada. Zero.

Qual a mensagem que toda a situação passa para mim? Que se um homem for gentil, te der presentes e etc., todo esse estereótipo hollywoodiano de Príncipe Encantado, ele pode exigir certos favorzinhos das mulheres na intimidade. Foi para isso que tantas mulheres lutaram por igualdade e continuam, hoje, lutando para não sermos mais vistas como objetos de qualquer natureza (seja objeto-limpador-de-casa, seja objeto-sexual)? Mais ainda: meninas adolescentes lendo isso, virgens, como Anastasia, será que vão conseguir enxergar além dos presentes e charme de Christian Grey? Acho que a resposta ‘não’ cabe para as duas respostas.

Reforço que meu incômodo não tem a ver com rótulos como “comercial”, “mal escrito”, “pornô barato”, etc., mas sim com o incrível retrocesso que isso representa para a mulher: ser, meramente, um objeto para a satisfação sexual do homem em alguns momentos e para exibição em praça pública em outros.

Para finalizar, gostaria de lembrar que Rousseau, o grande mestre da igualdade entre os homens, foi um dos responsáveis, também, por dizer que a racionalidade é uma característica exclusiva da natureza masculina, sendo a mulher, por conseguinte, incapaz de ser racional, e, evidentemente, de pensar por si, tomar decisões e de não ser emocional. Quando engolimos este tipo de história sem sequer refletir sobre os papéis pré-construídos que representam, estamos mostrando que, como mulheres, podemos ainda estar fazendo Rousseau rir-se de nossas lutas onde quer que ele esteja.

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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