Sobre pés, tufos e caráter

Estava com os olhos bem abertos, desse jeito que ficamos ao olharmos para dentro de nós mesmos. Pois bem, estava eu de olhos abertos quando uma conversa me distraiu.

– O meu pai vem de família espanhola; a minha mãe, de italiana. Mas tá vendo esse tufo crespo aqui atrás? Tá vendo? Eu devo ter um pé na senzala. Juro, eu já tentei de tudo, mas não fica liso igual ao resto do cabelo. E eu não sei de onde veio, pois na minha família todo mundo tem cabelo bom…

– Menina, e você sabe que a minha mãe era filha de índia e o meu pai era assim, moreno que nem eu, mas o meu cabelo também é ruim? Eu aliso e tudo, mas, não sei se dá pra ver, o meu cabelo é bem ruim, sabe? Acho que veio de alguém de lá do lado do meu pai, porque da minha mãe, precisa de ver, menina, é tudo beeem lisinho escorrido. Tanto que minha filha é assim, mais ou menos da minha cor, mas o cabelo dela é melhorzinho.

Fiquei encabulada, com vontade de me virar e me meter na conversa. Era o cabelo bom, sabe? Parece que, no final, tudo se resumia a isso, ao caráter do nosso cabelo. Ora, desde quando cabelo tem caráter? No que consiste a superioridade de uns cabelos sobre outros, de umas peles sobre outras? Quando nosso caráter passou a se manifestar na matéria de que somos feitos? Quando passamos a acreditar em tudo que nos foi contado, em tudo que nos foi imposto? É, pelo visto essa história sem pé nem cabeça foi muito bem contada, tanto é que quase todo mundo ainda acha que cabelos crespos são realmente ruins, inaceitáveis. Mas o que fizeram de tão ruim para serem os vilões de nossa história? Ou o que fizeram os cabelos lisos de tão bom para serem tomados como padrão de excelência, os heróis a serem seguidos? É, porque cabelo bom mesmo é cabelo liso. Cabelo crespo é ruim. É ruim pra pentear, pra cuidar, pra preservar, pra lembrar, pra admitir, pra assumir. E de coisa ruim na vida a gente já tem tanto que é melhor não ter que encarar isso também, melhor deixar pra lá… na senzala, no posto, no ponto de ônibus, escondido no álbum de fotografia, nas áreas de serviço e nas ruas. E é melhor limpar da memória também, porque o que não é bom é melhor deixar pra lá, esquecer… É, não é que contaram essa história direitinho? Tanto que até hoje tem gente achando que cabelo tem caráter.

Quis me virar e contar a verdade pra moça negra que se dizia branca e pra moça com vergonha do pé na senzala. Mas não era apenas sobre o tufo ou o caráter do cabelo. A história era outra e muito longa. Quis, então, me virar e lhes contar uma outra história, dar voz a outros personagens. Quem sabe não acreditassem em mim. É, melhor fechar meus olhos e contar outra história.

Sobre pés, tufos e caráter 1

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *