Sobre malas e bagagens

Nunca soube fazer malas, nem para os pequenos trajetos ou viagens além mar. Só a palavra mala me dá ojeriza. Talvez, pela inconveniência do vocábulo, que remete à mais pura chatice ou ao peso. Gosto da leveza e, definitivamente, mala não combina com isso. E toda mala é uma frustração tremenda. Tem tudo que não precisamos e quase nada daquilo que realmente é essencial.
Também, entendo como mala toda aquela bagagem que carregamos na vida, aquela coisa de juntar perdas e ganhos num só saco, sem saber direito o que pesou mais.
Na nossa mala da vida, estão ainda todos os micos não esquecidos – aqueles que de tempo em tempo, rememoramos, e por mais que tenham passados os anos, eles ainda nos ruborizam.
Para uma viagem curtíssima, recentemente, me orgulhei de levar pouca coisa. O tempo de dedicação para fazê-la foi mínimo. Quando cheguei, logo vi que não usaria a metade. Fato confirmado só na hora, já que uma ou duas horas antes, jamais poderia ser antevisto. Numa viagem para a Califórnia, apesar de ter levado o mundo e fundos, me senti nua naquele planeta. O que explica tudo isso?
E não se trata de falta de leitura ou indicações de como fazer a mala perfeita. Já vi esse filme milhares de vezes, mas a dica do outro nem sempre cabe na nossa cabeça, porque todo ser é totalmente diferente e único. São estilos, despojamento, o gosto por um salto ou um tênis, aquilo que dá conforto pra um e não para os demais.
Mas quero finalizar tocando na questão da mala principal que temos que carregar todo dia. Na viagem diária da vida, vamos apertando relacionamentos, amizades, trabalho, angústias, lazer, compromissos, raivas, decepções e tudo tem que caber ali. Entram coisas que a gente nem mesmo queria e que pesam toneladas. Não sei como, mas a gente dá um jeito. Aperta daqui, desiste de levar um ou outro desejo em frente, tira alguns badulaques emocionais e os coloca do lado para que outros possam entrar. Muita coisa que era imprescindível em um determinado momento fica sem importância nenhuma; e pode ser descartado a cinco minutos antes do embarque. Eta bagagem difícil de ajustar e levar.

O ideal mesmo é só colocar coisas leves: bons momentos, risadas, conhecimentos, alegrias, crescimento, sabedoria, esperança – e tentar deixar o resto no aeroporto ou rodoviária, ou não deixar entrar no seu porta-malas.

Já que a vida é a melhor viagem, o melhor é que a nossa bagagem seja um verdadeiro tesouro, não daqueles pesados que mal podemos arrastar; mas de preferência, aquele que seja leve o suficiente para termos prazer de carregá-lo.
Quão imponderável e insustentável é essa leveza que precisamos encontrar.
Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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