Sobre fracassos e a cultura da dúvida

Que fique bem claro: não sou livreira, nem tenho negócios com livros. Só tenho uma paixão ilimitada pela leitura, de qualquer natureza: vou dos quadrinhos aos romances, das atualidades a biografias; adoro história, geopolítica, amo economia, esportes diversos; e tento, na medida do possível, cumprir um compromisso obrigatório com minha área: o jornalismo.

Acho ler o maior barato, nunca esteve vinculado só ao trabalho, mas ao prazer. Vale a máxima que o conhecimento adquirido é um patrimônio que jamais pode ser comprado, roubado. Minha mãe já dizia: é seu e pronto. Ninguém tira! Não precisa comprar, dá para emprestar, sem ter que pagar juros mais tarde; e os dividendos são enriquecedores. Estão aí as bibliotecas e a Internet para garantir isso.

É por essa razão que, de novo, vocês me verão comentar mais uma leitura,  uma publicação. Acabo de lerNação Empreendedora – O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina. Leitura de um dia (são mais de 300 páginas, mas as exigências acadêmicas não dão trégua), que deverá ser revisitada quando houver mais tempo.Mas fiquem ainda mais tranquilos, pois, neste espaço, não vou discorrer sobre a história do povo judaico, suas guerras, expulsões, conflitos, que vão de antes de Cristo aos dias atuais; falar dos seus saltos econômicos e vocação ilimitada para transformar e inovar o mundo – que são admiráveis e mereceriam, sim, muitas linhas.

Vou me ater a dois aspectos que me surpreenderam na publicação: sobre a  cultura e tradição judaicas – a forma como essa sociedade trata a questão do fracasso, como uma nova oportunidade para acertar, uma possibilidade de se tirar lições para se tornar melhor; e a saudável cultura da dúvida e discussão, que segue até mesmo a religião e a área militar israelense. Quer coisa mais incrível!

Para nós do Ocidente, é tão raro – e quase inaceitável – dar uma próxima chance num pequeno deslize ou pisada na bola; imagine num tropeço profissional ou num grande fracasso? Já ouvi que em sociedades como a japonesa, o sucesso é quase uma obrigação – não raro, empresários falidos se matam. Suicidas por escândalos são comuns, ninguém pode ser pego no erro. Errar é humano, mas tem humanos que não sabem disso. O erro é pago com a vida.

Então, fico sabendo que mesmo no Exército Israelense (Forças de Defesa de Israel – FDI), não se queima ninguém permanentemente por um mau desempenho, já pensou isso por aqui?  Por outro lado, se você erra é motivado a mostrar o que aprendeu e como tirar proveito das falhas para se preparar para superar situações ainda mais complexas e adversas.

Fiquei ainda mais surpresa ao ter informações sobre a sua estrutura. O exército de Israel, aborda o livro, tem menos oficiais para dar ordens, porque se aposta que menos superiores exigem mais iniciativa pessoal e individual dos inferiores. Outro ponto de destaque é que as patentes inferiores devem sempre questionar seus superiores – a cultura da anti-hierarquização e da horizontalização são fortes. Quem lê isso no Ocidente já arrisca: por aqui, isso não pode dar certo e aposta na bagunça e derrocadas. Israel provou o contrário. Derrotas são algo que as Forças de Defesa de Israel não assistiram pós-independência em 48: foram sete guerras/confrontos nos últimos 62 anos, com vitórias esmagadoras. Parece que Israel tem muito mesmo a nos ensinar, tanto que prestar o serviço militar no país é tão importante quando entrar numa universidade – também com visão tão diferenciada dá para compreender. Acredita-se, em Israel, que ao ser recrutado e lidar com guerras e batalhas é possível distinguir entre o que é importante e o descartável, situações de morte e de vida – filosofia transportada para o mundo do trabalho e dos negócios, que só impulsiona o empreendedorismo.

Quanto ao lado questionador de um judeu, eles adotam uma palavra de origem eslavo-alemã para conceituar essa característica quase singular. O “CHUTZPAH” é identificado em qualquer israelense pelo questionamento, ousadia, atrevimento e enfretamento em qualquer circunstância. Qualquer mortal, que chega em Israel, supreende-se e pode achar esse povo um tanto rude pela sinceridade. O judeu pergunta sobre tudo, sem o menor pudor – como um traço da sua cultura. Uma das vantagens é a transparência, a sinceridade sobre as opiniões e posicionamentos. Chefes, diretores,  executivos são questionados sempre, independente da hierarquia. Como é comum se falar às claras, quase não se vê uma pessoa falando de outras por trás, por exemplo. Imagina quanto não se ganha com isso. Já que fofocas e bobagens são deixadas de lado. O livro traz até uma citação que pode assustar: “é muito mais fácil gerenciar 50 americanos do que um grupo de cinco israelenses pela sua eloquente curiosidade e preocupação em compreender tudo – só perguntando muito mesmo.”

Como não posso continuar, de forma infinita, a resumir o texto; mas só a possibilidade de compartilhar uma milésima parte da leitura; e quem sabe motivar a curiosidade de outros leitores já me permitem dormir tranquila. Sempre há muito o que aprender com a leitura, com Israel também.

 

Mais: Nação Empreendedora – O milagre econômico de Israel e o que ele nos ensina (2009), é assinado por Dan Senor e Saul Singer, e publicado pela Editora Évora.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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