Sobre amar e educar…

… sobre alimentar e nutrir – Ao longo dos últimos tempos, o ato de educar parece ter sido destinado exclusivamente aos pais e estendido, no máximo, aos educadores nas salas de aula. Há, ainda, quem defenda que professores não são responsáveis pela educação e, sim, pela formação – passagem e compartilhamento de conhecimento – como se fosse possível desassociar os dois lados da mesma moeda.

Como não tenho filhos, isso poderia passar batido no meu dia a dia, na minha vida. O que eu poderia ter a ver com isso? Mas esse é um questionamento que me aflige. Educar não é tarefa particular de pais, acredito. Não pode existir apropriação exclusiva, nem tal sensação de pertencimento, desse ato que é obrigação e dever de qualquer cidadão. Imagine uma criança na sua frente numa atitude absurda, não dá pra se calar, me perdoem os pais e filhos. Definitivamente, o silêncio não é meu companheiro. E eu questiono, o que você faria?

No cotidiano, é comum ouvirmos que pais devem educar, tios, avós e padrinhos devem mimar e, cegamente, desconsiderar as pequenas e grandes falhas; pois para isso existem os pais. Como se regras, conceitos e valores, pudessem ficar restritos a paredes dos lares. Não concordo!

Outro ponto que me chama a atenção é a negligência dos pais contemporâneos, que preferem ser amigos, a ser pais de verdade. Amigo releva, quase sempre. Não se indispõe. Faz concessões o tempo todo. Quase não diz não. Pais não podem ser assim – não que seja inconciliável as duas coisas, mas deve prevalecer a responsabilidade. É preciso dialogar, mas há que se ter limites; é preciso dizer não e achar graça de ser tachado de chato; saber aguentar mau humor e cara feia. Esse é o preço a pagar na hora de educar. Se seu filho não entender agora, o amadurecimento garantirá outra resposta mais tarde. Tenha paciência.

Na minha experiência pessoal e no meu círculo social, canso de ver pais se matarem de construir valores materiais, trabalharem por horas, dias e noites a fio para deixar como legado a seus filhos uma escola particular, uma boa faculdade, um carro novo e, se possível, um terreno ou casa num condomínio fechado; mas sequer dispensam duas noites na semana para uma conversa, para um jantar em família, para um momento de lazer. Alguns não se lembram de – ou não fizeram – uma viagem em família. Desconhecem o mundo, mas deixam seus filhos desbravarem o planeta, sem avaliar idade, condições para solucionar situações adversas, quando mal ensinaram regras básicas de sobrevivência, em tempos em que a violência e os riscos são potencialmente enormes.

Não defendo a superproteção – que diametralmente é tão nociva quanto a negligência. Ah, tão sonhado equilíbrio que escorre pelos nossos dedos – quase intocável, quase inalcançável. Nada pode ser mais obtuso que impedir o crescimento de alguém por meio do experimentar, mas que – no meu entender – tem que ser dosado, com limites, de preferência.

Imagine que um jovem que não sabe minimante que existe disciplina pra tudo – não militar, é óbvio – para: comer, se divertir, beber, estudar, consumir, gastar, dirigir, até para ficar em frente a um computador, possa encarar a vida de frente sem tombar-se homericamente.

Muitos pais, na sua zona de conforto, apostam que na hora do vamos ver, “eles se viram” – mas será mesmo? A que preço, a que custo? E vão querer cobrar o que nesta hora, com tão destratada dedicação?

É límpido que essa nova geração tem todo tipo de informação – praticamente na sua primeira ou no máximo segunda década de vida. O que muitos de nós não tivemos. Mas ter informação – o que é essencial  – não significa saber o que fazer com ela.

 Não é em vão que vemos, de forma precoce, tantas vidas perdidas no vício das drogas, encerradas na inconsequência das bebidas, frustradas pela ausência de limites e pela liberdade exacerbada.

Tenho conhecidos e amigos que afirmam, sem pudor, que desistiram dos filhos, pois a Lei não permite que eles “desçam mais as mãos”, como se a violência pudesse resolver, como se fosse impossível convencer com a palavra. E, ainda, se vitimizam. Mas, afinal, quem é a verdadeira vítima nesta história? Esse grupo me aterroriza, mas percebo que reproduzem a (ausência) educação e dedicação que também não tiveram – não justifica, mas se explica. Acreditam que deram tudo e não sabem o que faltou.

Entretanto, o segmento que mais me estarrece é o grupo que tem plena condições, foi nutrido num modelo familiar impecável, mas não consegue repassar o que lhe foi garantido. Ainda, assim, tem fé que educa perfeitamente e mal percebe que só alimenta o filho; mas não o nutri. Na primeira exigência de um esforço maior, ele vai pender; ele não conseguirá se sustentar.

Se você tem filhos, pense nisso. Quem ama, educa! E sabe que amar exige muito mais do que se possa imaginar fazer. Dá trabalho mesmo – por toda vida. Já passou da hora de pais garantirem mais que alimentos, mas nutrição as suas proles.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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