Sobre a afeição…

O silêncio das carteiras vazias foi aos poucos sendo tomado por passos agitados e cada vez mais fortes. Entre empurrões, um bom dia aqui e acolá, rapidamente o ambiente foi preenchido, e a sala parecia ser menor do que outrora. Rostos cansados, suados; olhos distraídos pelo celular e pela movimentação que havia do lado de fora da janela.  Conhecíamo-nos há 4 meses e, desde o primeiro dia (embora  poucos me notassem), eu reparava neles bem. Já sabia onde se sentariam, se haviam brigado, se estavam com dúvidas ou entediados. Pedro era o descolado que não sabia receber ordens. Devia ser um desses meninos criados pela avó que cerca os netos de mimos. Já os olhos vermelhos e inchados de Felipe denunciavam seus hábitos. No grau que estava, era melhor deixá-lo dormir antes que arrumasse briga. É, eu os conhecia o suficiente para decifrar alguns sinais e saber como abordá-los. Pelo menos era o que eu achava…

Mas um dia, aquele dia que parecia ser mais um daqueles dias previsíveis, fui estranhamente surpreendida. Enquanto eles faziam exercícios de revisão para a prova e eu me desdobrava para auxiliar e motivar cada um, escutei a voz doce e tímida de uma aluna me chamando. “Mãe, me ajuda aqui…”. Olhei-a com estranheza. Ora, e lá tenho eu cara de mãe de uma menina de 14 anos? Ela também me olhou com cara de espanto, sem acreditar no que ela própria dissera. “Desculpa, dona. Foi sem querer…”. “Não, tudo bem. O que você queria saber?”. Mas não, não estava tudo bem. Nem para mim, nem para ela. Nós duas estávamos um pouco constrangidas com o que havia acontecido, e eu não conseguia parar de pensar no porquê de ela ter me chamado de “mãe”.

Após o término da aula, perguntei sobre aquela aluna para a coordenadora. Não só soube um pouco mais da vida daquela menina como também da de Pedro, Felipe, Breno, Ana… Escutei calmamente e nem tive tempo de absorver tudo aquilo; o sinal tocara. Subi as escadas e nunca a subida tinha sido tão dolorosa. O silêncio das carteiras vazias foi aos poucos sendo tomado por passos agitados e cada vez mais fortes. Entre empurrões, gritos e correria, rapidamente o ambiente foi preenchido, e a sala parecia ser menor do que outrora. Rostos cansados, suados; olhos distraídos pelo celular e pela movimentação que havia do lado de fora da janela.  Estava lá há 4 meses e só ali, naquele instante, eu me dei conta de que eu não os conhecia.

Pedro, o descolado, era de fato criado pela avó. O vício pelo crack fez sua mãe trocar a família pelas ruas. Ninguém queria cuidar do menino que se drogava e só dava trabalho. Felipe, dos olhos vermelhos, não conhecia o pai. Sua referência paterna era o padrasto, um dos maiores traficantes da região. Já aquela voz doce que me chamou de mãe perdeu sua figura materna há alguns meses e estava morando com os tios. Estava sofrendo para se adaptar e lidar com a perda.

Em sala, olhei para cada um. Senti-me mal, com vontade de chorar e de abraçá-los bem forte. Seus olhares realmente escondiam uma dor que sozinha eu não seria capaz de decifrar. Em sala, em casa, na vida… Achamos que somos perspicazes, que conhecemos as pessoas só de conviver um pouco com elas. Não. Reparamos, sim, nas roupas que as pessoas vestem, se repetiram ou não aquele brinco, reparamos no perfume que usam, no modo como se sentam, no modo como nos olham… (E isso não vale só para nós, mulheres). Mas, para perceber de fato alguém não basta apenas reparar. É preciso afeição, empatia, sair de nós mesmos. Acho que ainda somos muito egoístas para sermos capazes disso…

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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