Simplificar é preciso!

Por quê tudo em nós precisa ser tão intenso, fundo, abismo, extremo? Se é para quebrar a cara tem que ser pra valer. Ser for para errar, precisa ser de forma homérica. Qualquer risco, só vale mesmo, se for para o tudo ou nada. Se for para chorar, o mar é pequeno concorrente no volume. Para gargalhar, toda a face vai reclamar da dor mais tarde. Se a dor chegar é para não ter forças pra pedir socorro. E quando a felicidade se instala, ela preenche todos os milímetros e poros do corpo. Se tiver que sangrar é pra ficar anêmica, desfalecer. Se for pra fazer algum feito é para transformar o mundo – como se isso fosse possível a toda hora. Essa intensidade é tipicamente feminina – e, nesta subjetividade, ninguém é capaz de nos definir ou compreender – nem nós mesmas. Será que somos um pouco ou um tanto loucas?

Não sabemos ser meio, metade; buscamos o todo, o inteiro, o tudo. Aquela visão do copo com água pra nós mulheres, invariavelmente, será, para a maioria, meio vazio e não meio cheio. É como se mergulhássemos a todo instante de um penhasco para encontrar o que está na superfície. Não faz sentido, não é racional, não é inteligente, nem saudável – mas estamos lá, a toda hora, prontas para o salto, para a imersão. Não nos importa a pele, é preciso ultrapassar a derme.


Tudo isso tem um preço impagável, traz insatisfação e frustração. Há muito mais dor do que delícia, e, ainda assim, não mudamos a rota. Quanta complexidade contorna o mundo feminino, o nosso mundo.

Tenho buscado uma filosofia de vida que se resume na máxima: “o bom é inimigo do ótimo”, nas pequenas e grandes buscas, seja no trabalho, na vida pessoal, nos resultados cotidianos. Meu irmão mais velho, e muito mais sábio, sempre me repete essa frase que me liberta. Colocar isso 100% em prática são outros quinhentos.  O conceito de bom para nós, mulheres, é infinitamente mais profundo do que para os homens. É, por isso, que nossas diferenças são tão grandes, mas nos unem e nos complementam. Brinco com minhas amigas que, não é à toa, o homem no seu momento de lazer vai literalmente se divertir, na grande maioria das vezes, correndo atrás de uma bola. O que eu acho o máximo pela simplicidade, pela cooperação, pela liberdade. Nós, mulheres, não! Se o chá da tarde não tivesse caído em desuso, estaríamos até hoje nos chateando com fofocas e frivolidades ao redor de uma mesa.  Nada contra a um grande encontro de amigas, mas, muitas vezes, tudo tem que ser tão “quadradinho” que dá um tédio. Agora, nos resta o shopping. Lazer é sinônimo de consumo – desenfreado – para muitas. Não quero fazer aqui nenhuma apologia de que ser mulher é muito complicado – embora acho que seja mesmo; e que o outro lado da moeda é o máximo. Só penso que temos um grande desafio a aprender com os homens: o de buscar simplificar as coisas, de descomplicar. Penso que esse é um desafio de vida.

Também, me perdoem as amigas competentíssimas que são muitas, porque, afirmo e reafirmo que atuar com os homens é bem mais fácil. Não se trata de disputa ou concorrência mesmo; é que normalmente, a convivência entre mulheres dá muito mais trabalho, exige mais força no convencimento; e, claro, somos movidas àquela explosão de sentimentos causados pelos hormônios, que exige de quem está ao redor uma sensibilidade diária, um fôlego imenso. Haja paciência!

Para nos aturar, por muito tempo, só mesmo os homens, que são natos no disfarce e no relevar. Mulheres estão sempre à beira de um ataque de nervos; muito mais hoje, do que ontem. E muito mais amanhã, do que hoje.

E apesar disso tudo, ainda não perdemos, de todo, o nosso charme e todo poder de sedução. Em que se pese toda a nossa singularidade, nossa excentricidade e loucura; acho que conseguimos ser boas demais. Não ótimas, nem perfeitas.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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