Sem Sementes

Sem Sementes 1

Crédito: Monique Souza

Passeando pelos corredores solitários de um supermercado, fui gentilmente atraída por algo que chamava minha atenção não para o cheiro, nem para o tato e, sim, pela sua nova caracterização, fruto de um mundo repleto de modernidades.

Estava ela lá, envolvida num plástico filme e fatiada no formato de um triângulo da mesma forma que papai, muito calmamente, costumava fatiar e me servir quando criança.  Confesso que fui atraída por sua embalagem.

Por alguns instantes fiquei enamorando-a, dentre as outras frutas expostas na banca, e lembrando de quando mamãe chamava o moço da sessão para cortá-la ao meio e, assim degustávamos um singelo pedacinho a fim de comprovar que estava doce o suficiente. Do contrário, a matriarca se negava a levar o peso todo pra casa.

Lembro que enquanto a gente provava, escorria água pelos cantinhos da boca e pedíamos um lixinho para cuspir as pequenas sementes. Eram tantas, mas preferíamos cuspir uma a uma. Eu me divertia com elas escapando pelos lábios e com as fracassadas tentativas de acertar o lixo.

Mamãe, já convencida da sua doçura, optava por comprar metade do peso,  o que faria a nossa diversão, assim como das minhas primas e dos adultos da família que cometiam a arte de se lambuzar mesmo crescidos. Eu, propunha a carregar as sacolas do mercado para que nos próximos segundos minha mãe não reclamasse de dores nos braços, coluna, pernas, joelhos ou mãos.

Declaro outra vez que fui abduzida por aquela coisa embalada, que continha escrito na etiqueta em Arial, tamanho 10, o sinônimo da palavra comodidade: “Sem sementes”.

Ora não tive escolhas e, agora já crescida, o pai não há de cortar a melancia em fatias e eu terei de equilibrar o peso das sacolas do supermercado pelas ruas esburacadas e mal construídas do centro da cidade grande, onde as pessoas se esbarram umas às outras.

Admito, fui presa fácil da comodidade que o mundo moderno oferta.  Roubaram o meu tato, maltrataram meu paladar e colocaram fim nas histórias de famílias a ponto de nos convencer que aquela fatia era a representação da nossa mudança social.

Vivemos em um mundo na qual a rapidez tornou–se um bem necessário.  A comida deixou de ser sinônimo de prazer e forma de unir pessoas ao redor da mesa para tornar-se imagens compartilhadas, curtidas e comentadas nas redes sociais. E, não somente as melancias ganharam nova roupagem na indústria alimentícia, mas o macarrão de domingo com a família também mudou. O ato de comer/cozinhar na sociedade contemporânea é algo que pode ser feito em menos de 3 minutos.

Quando penso no verde da casca e no vermelho da polpa que inspirou Maurício de Sousa, na sua criação com a personagem Magali, fico a lamentar as perdas de nossas memórias afetivas diante a esse processo de rapidez e industrialização que a cada dia mais é oferecido por esse mundo meramente capitalista.

Sobre Monique, a destemida

Para mim o céu é o limite. Vivo como uma adolescente que sonha em mudar o mundo. Acredito no ser humano e na força do bem sobre o mal. Curiosa por natureza e jornalista por formação, adoro conhecer pessoas por meio de suas histórias e transformá-las num belo registro fotográfico. Paixão e ousadia que me levaram aos caminhos do fotojornalismo.

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