Se vira nos 30. Mas como?

Disseram que, quando fizesse 30 anos, tudo iria mudar. Que seria como um marco em sua vida, antes e depois, quase que como um clique, um apertar de botão, uma mudança de posição na alavanca que liga alguma coisa importante, como nos filmes.

Quando os gatilhos forem apertados à meia noite, você ficará esperando e… nada. Como quando a bomba vai explodir e o personagem, já sem esperanças, coloca as mãos nos ouvidos ao final da contagem regressiva. Dois, um… mas nada explode. Ele abre os olhos e não vê nada, nenhuma faísca, nenhuma explosão cinematográfica. Apenas uma constatação, a de que os tão, tão distantes 30 chegaram e, com eles, nem tudo o que você gostaria, mas muitos questionamentos. Se vira nos 30. Mas como? 1

Recorra aos seus arquivos de dez anos antes. Quando completava 20, o marco que acaba de vez com a adolescência, provavelmente faculdade em curso, futuro profissional sendo trilhado, foi estranho ver as responsabilidades vindo mais concretamente. Durante a década, o sono passou a vir mais cedo do que antes, a manutenção do peso exigia mais regras, a facilidade com que o corpo se adaptava a má postura ou a aprender movimentos novos já não era a mesma. Comigo também foi assim. E em meio a tantas mudanças, foi então que alguém, um pouco mais velho, me disse: “Hoje você se acha velha. Quando tiver 30, vai ver que só tinha 20”. Que simples e grande verdade.

Pois bem, volte algumas casas. Essa preocupação com a idade sempre existiu. Com 18, a alegria da maioridade, mas o peso da responsabilidade. Com 15, as preocupações eram outras, envolviam a escolha de uma carreira, o vestibular que em pouco tempo se aproximaria e parecíamos, aos nossos olhos adolescentes, pessoas maduras. Que brincam com os amigos, mas querem parecer grandes. Que gostam de regalias de criança, mas querem respeito como um adulto. Aos 12, será que erámos como as outras pessoas, tínhamos vivido o que elas também tinham em uma idade de tantas mudanças?

Hoje, com 30, de certa forma, fazemos o mesmo em diferentes proporções. As preocupações são outras, mas a lógica é sempre a mesma. Questionamos nossas escolhas, nossas oportunidades aproveitadas ou perdidas, olhamos para a grama do vizinho. Mas isso não é necessariamente ruim. Fazer um balanço sobre a vida, além de ser comum a cada encerramento de um ciclo, nos faz ver o que gostamos ou não, o que podemos mudar, ou não, o que depende de nós. É uma oportunidade de rever, agradecer, fazer as pazes com o que foi possível ser feito até agora e traçar novas estratégias.

Certa vez vi a seguinte pergunta: “Se você pudesse, qual conselho daria para você mesmo quando adolescente? ” Alguns deles valem para hoje também. Inclusive aquele conselho que pede: “calma, você só tem essa idade. Não se cobre tanto”.

Aquelas palavras tão simples do sábio mais velho “você vai olhar para trás e ver que só tinha 20 anos” (substitua aqui a idade que quiser) me fizeram enxergar a realidade. Eu só tinha 20. Hoje só tenho 30. Amanhã só terei 40. A gente se esquece que, ao final de cada ciclo, surge um novo e que, com as mudanças e a necessidade de se adaptar, vem muitas recompensas. É claro que a vida vai mudando, vamos adquirindo responsabilidades e dores nos joelhos. Mas também uma firmeza maior sobre o que somos, o que gostamos, quem vale a pena em nossa vida e uma coleção de boas memórias.

Seja aos 20, 30, 60, não é apertada nenhuma alavanca que muda tudo. As mudanças vêm aos poucos, um dia de cada vez, conforme vamos vivendo e, a cada dia, aprendendo. A sabedoria aumenta com a idade porque também é preciso tempo. E que possamos aproveitar o nosso para terminar e começar nossos ciclos.

 

 

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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