Reencontros

Reencontros 1Umas semanas atrás reencontrei uma pessoa querida e recebi o texto abaixo, que compartilho com vocês.

É incrível como a vida nos proporciona situações de reencontros. Coincidência ou não, estamos sempre reencontrando pessoas e lugares. Se você digitar no Google “definição de reencontro”, está lá: substantivo masculino: ato ou efeito de reencontrar (-se); novo encontro; redescobrimento. Reencontrar é redescobrir, ou seja, descobrir novamente, conhecer de novo. Não é ótimo reencontrar uma pessoa e descobrir que ela está bem, melhor do que quando se viram da última vez, que ela evoluiu em algum ou em vários aspectos? Claro que há os reencontros desagradáveis, como quando você reencontra uma pessoa que, seja lá o motivo, você não gostaria de reencontrar, mas ela está lá, na fila do supermercado, duas pessoas a sua frente. Mas vamos focar aqui nos outros reencontros.

Um dos maiores pensadores pré-socráticos, Heráclito de Éfeso, em um dos fragmentos esparsos que restaram de sua obra diz que “nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, tampouco o homem o é”. Isso significa dizer que, em um reencontro, ninguém é do mesmo jeito que era no último encontro. Tudo muda. E é ótimo que seja assim! Nos reencontros com as pessoas queridas, passe o tempo que for, há em nós uma satisfação em saber novamente quais são seus planos, em descobrir o que ela fez nesse tempo todo. E o que ela fez? Estudou, trabalhou, viajou, ganhou, perdeu. Enfim, ela viveu, assim como você. E o compartilhamento dessa vivência, essa doação de experiências, é o exercício da amizade. Mesmo que a vida tenha levado vocês para caminhos diferentes, lugares distantes, ainda será aquela mesma pessoa, porém em uma “nova versão”, que algo em nós quer redescobrir. Reencontrar um amigo é reafirmar a certeza de que os laços que nos unem podem ser tão fortes quanto os laços biológicos, de sangue. Há amigos que são como irmãos.

Existem também os reencontros com os lugares. Há algo de mágico em viajar e conhecer lugares novos, ou seja, em descobri-los. E essa magia está presente também quando você volta àquele lugar, seja um mês ou dez anos depois. Aquela cidadezinha no interior onde moravam os avós e onde você passava as férias quando era criança, mas que desde então não é mais prioridade visitar, reserva surpresas. Há sempre o que redescobrir. Rever as pessoas, as casas, as árvores e notar como elas mudaram, como reagiram à ação do tempo que separou o encontro do reencontro.

Existe, ainda, aquele que é o reencontro com a pessoa mais importante do mundo: você. Isso mesmo, reencontrar-se consigo. Esse é o reencontro mais importante de todos, pois dele resulta a pessoa que você será dali em diante (ou, melhor dizendo, das mudanças que você fará na vida a partir dele). Não existe ninguém que, em algum momento da vida, não tenha se sentido perdido. E essa busca, essa reavaliação constante sobre os caminhos que escolhemos, é necessária para nossa paz de espírito, pois é vital sabermos para onde queremos ir. É a partir daí que fazemos planos, estabelecemos metas, traçamos estratégias e, enfim, vivemos. Nesse sentido, acho oportuno citar um trecho da obra “Alice no País das Maravilhas”, escrita no século retrasado pelo matemático inglês Charles Dodgson, sob o pseudônimo de Lewis Carroll. Nessa obra, a menina Alice, inquieta, vê um coelho passar e corre atrás dele para descobrir até onde ele iria. No afã de alcançar o rápido animalzinho, ela cai, viajando para um insólito mundo, o “País das Maravilhas”. Entre as inúmeras e incríveis personagens da obra, uma delas é o gato, do qual somente revela-se o sorriso, e, às vezes, o rabo (você deve se lembrar do desenho da Disney inspirado nessa obra). Há uma cena marcante: o encontro de Alice com o gato. Para resumir, Alice está perdida, andando e descobrindo aquele lugar e vê no alto de uma árvore o gato. Ela olha para ele pergunta: “Você pode me ajudar?” Ele, educadamente: “Sim, pois não”. “Para onde vai essa estrada?”, pergunta ela. Ele, sagaz, responde com outra pergunta: “Para onde você quer ir?” Ela diz: “Eu não sei, estou perdida.” Ele, então, afirma: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve”. Para ratificar a força dessa frase, vou repeti-la: Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve. É imprescindível saber para onde estamos indo! Quem deixa a vida lhe levar, como na música de Zeca Pagodinho, pode não chegar a lugar algum.

Não podemos cair na cilada de nos acomodarmos e não termos um caminho bem definido a percorrer na vida, sob pena de vivermos uma existência medíocre, banal, fútil, inútil. É no reencontro consigo que você tem a oportunidade de rever as escolhas que fez, lembrar dos planos que tinha anos atrás e constatar como se desenvolveram (eles se realizaram?), verificar se adquiriu novos hábitos e se esses lhe fazem bem, estabelecer (ou reajustar) metas, ou seja, traçar um caminho! Uma auto-análise, enfim. Nesse momento, é muito importante se despir das ideias prontas, é preciso ser rigorosamente honesta(o) consigo, olhar para si de fora para dentro, para que a conclusão seja realista, pois, como nos ensinou o gato, qualquer caminho não serve se você sabe para onde quer ir. O reencontro consigo é um poderoso exercício de auto-conhecimento. Há profissionais que podem ajudar nessa busca, mas é perfeitamente possível fazê-la sozinha(o).

Mario Sérgio Cortella, filósofo frequentemente convidado aos programas de televisão e rádio, muito citado nas redes sociais, escreveu um livro de deliciosa leitura chamado “Qual é a tua obra?” Ele parte justamente desse questionamento que dá nome ao livro: “qual é a tua obra (na vida)?” Se eu e você não existíssemos, que falta faríamos? Aliás, faríamos falta? A quem faríamos falta? Essa é uma reflexão importantíssima, uma salutar inquietação existencial que esse reencontro com você mesma(o) proporciona e cuja prática periódica torna a escolha do caminho mais lúcida e, portanto, mais coerente com sua realidade.

Por fim, convido cada uma e cada um que chegou até aqui a realizar reencontros. Permita-se descobrir de novo pessoas, lugares, mas principalmente, deixe-se redescobrir, reencontrar, aquela que é a pessoa mais importante para você: Você!

Lúcia, a exploradora

Sobre Lúcia, a exploradora

Estou sempre disposta a enfrentar os desafios que a vida ousa colocar em meu caminho. Uma feminista a explorar novos olhares, novos contornos. Escritora, tradutora, amante das letras e dos livros. Adoro conhecer o mundo, mas principalmente, as pessoas e suas mais incríveis histórias. Eu, exploradora de mim.

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