Questão de atenção

Seria mais um dia previsível. Acordou no mesmo horário e a mesma rotina se desenhou ao arrumar-se: a cama, as roupas, os cabelos, os brincos, a maquiagem, o café, os dentes, as chaves e o elevador. Suas primeiras palavras do dia seriam o bom dia para o porteiro, e então seguiria o mesmo trajeto dos dias anteriores. E assim foi. Na rua, seus pés conheciam bem aquele caminho e já previa os buracos dos quais teria que desviar, as poças que teria que pular e os cachorros que veria passear, tanto é que já nem prestava mais atenção. Mirava o chão, mas tudo o que via eram pensamentos que teimavam em sondá-la. Via preocupações, via ansiedade, contas e lembretes, até a hora de virar-se e verificar se não era seu o ônibus que vinha logo atrás.

Ao chegar no ponto, hora de separar o dinheiro da passagem. Tudo previsível, até que algo estranhamente perturbou sua rotina, o momento em que quase foi atingida por uma latinha de refrigerante que foi lançada de dentro de um ônibus que acabara de passar. Olhou a latinha, olhou o ônibus, e lhe veio uma vontade imensa de atirá-la de volta e acertar o maldito que a lançou. Sentou-se e desistiu da ideia, mas a latinha ainda estava lá a rir de sua cara. Resolveu andar a pé e pegar o ônibus em algum ponto mais à frente.

Andar a pé. Andar e, de repente, prestar atenção em tudo que outrora era menor que seus pensamentos. Andar e se dar conta de coisas que antes não via simplesmente porque não prestava atenção. Reparar no verde que emergia de um buraco na calçada, nos grafites estampados nos muros, nas flores de ipê que coloriam a praça, na risada das crianças que brincavam no parquinho, na senhora que limpava a calçada. Reparar na pressa, nos vendedores que se apertavam em calçadas, nos senhores que alimentavam pombos, no moço que pregava em uma praça.

Andar a pé e reparar que a cidade tinha cheiros, o cheiro do perfume da moça que passou em sentido contrário, do frango assando na padaria, do cachorro quente em frente à escola de inglês, do cheiro forte de urina que vinha de diversos muros, da fumaça dos automóveis. Andar a pé e comover-se com o senhor que pedia esmolas em frente ao banco, com um transeunte de pés sujos e descalços que falava sozinho no meio da rua, com criaturas escondidas em cobertores em vãos frios de concreto. Andar a pé e perceber o lixo espalhado pela cidade. Lixo de plásticos, de papéis, de chicletes, de carne e indiferença. E novamente a latinha jogada no chão, sem mais rir de sua cara. Pegou-a e jogou-a na lata de lixo mais próxima. Já nem se lembrava mais de quase ter sido atingida por uma naquele dia. O que a incomodava era o fato de ter demorado tanto em prestar atenção. Descobriu, naquele dia, cheiros, detalhes e cores que não podiam mais ser menores do que lembretes e preocupações pequenas. Tudo era novo. Nada mais era previsível. Naquele dia, descobriu finalmente que, na vida, tudo é uma questão de atenção.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *