Quem vai lavar a roupa suja?

Ontem, no Facebook, diversos foram os posts com homenagens, declarações ou reforçando a nossa luta pela igualdade de gênero. Um post em particular me chamou a atenção: era sobre um comercial da divisão indiana da marca Ariel (da P&G). A campanha já está circulando pelas redes há alguns dias e tem gerado muita repercussão.

Nela, um pai questiona a própria educação que deu à filha ao vê-la sobrecarregada com os afazeres de casa após chegar do trabalho. Ele olha pra filha – ocupada com o jantar, com a roupa que precisa ser lavada, com o filho e o trabalho pendente – e, em seguida, olha para o genro, que mal nota a esposa, entretido que está com a televisão. Foi o estalo que o pai precisava para se dar conta do desequilíbrio que havia ali, e que a educação dada à filha e ao genro foi decisiva para reforçar essa desigualdade. Ele pede desculpas e se prontifica a ajudar a própria esposa.

Ajudar. Esse é o verbo que, a meu ver, corrobora a ideia de que a responsabilidade por tudo que envolve o ambiente doméstico ainda é da mulher e que ao marido basta ajudar. Ajudar, a meu ver, reforça esse desequilíbrio. Nós mesmas, inclusive, frequentemente pedimos essa ajuda ou nos queixamos pela falta dela. Não são poucos os relatos de amigas que tocam nessa mesma questão: a sobrecarga com os afazeres domésticos. Homens acostumados a serem servidos, a terem suas roupas lavadas e camas arrumadas. Homens criados para não se sentirem responsáveis por esses afazeres, ou mesmo não se sentirem culpados por não lavarem nem a própria cueca. Homens que, com isso, não se incomodam então com a louça enorme na pia ou com o lixo transbordando e fedendo. Que fique lá. Uma hora se lava (provavelmente não será ele). Há coisas mais importantes pra fazer, como ver futebol, entreter os convidados ou dormir.

Nós, ao contrário, fomos criadas pra sermos mães e cuidarmos da casa. Bonecas eram nossas filhinhas e era divertido brincar com nossas vassouras em miniatura ou fazer comidinha com massinha (ai do menino que quisesse brincar com a gente de casinha!). Meninas que cresceram aprendendo a limpar e a ajudar a figura materna. Meninas que, com isso, aprenderam a se incomodar com a sujeira e a se sentir responsáveis por lidar com aquilo.

Veja, por exemplo, a sua própria família e amigos próximos. Lembre-se das visitas aos parentes, por exemplo. Lembre-se das festas de final de ano. Em quantas dessas situações um homem se levantou para recolher a louça? Em quantas dessas situações você viu um homem cuidando das crianças, pondo alguma delas pra dormir? Em quantas dessas situações você viu um grupo de homens arrumando a cozinha enquanto as mulheres relaxavam no sofá e terminavam suas cervejinhas?

São raros esses casos, não é mesmo? Será que é apenas uma ajuda que elas querem (não na hora em que é preciso, mas na hora em que vocês, homens, estão dispostos)? Muitas dessas mulheres trabalham fora, tanto ou mais que muitos desses homens. O cansaço é o mesmo, a vontade de simplesmente relaxar ao chegar em casa é a mesma. Mas quem vai dar banho na criança e fazer o jantar? Quem vai arrumar a cozinha sozinha depois e pôr a criança pra dormir? Quem vai deixar de relaxar pra dar conta sozinha da sujeira que também é sua? Quem vai continuar se sentindo incomodada com a sujeira e cansada do peso de lidar com isso sozinha todo dia? Ao final, quem vai continuar não se sentindo responsável por esses afazeres que são de responsabilidade dos dois?

Só ajudar não basta, portanto, pra fazermos valer de fato a igualdade pela qual tanto lutamos. Essa luta por uma sociedade menos machista e misógina começa hoje, em casa, com o modo como educamos nossos filhos ou nos conscientizamos de que um discurso bonito no face, meu caro amigo, é jogado no lixo toda vez que você chega em casa, joga as roupas em qualquer lugar e apenas relaxa enquanto sua parceira se preocupa com todo o resto. Ou mesmo quando você está um pouco mais animado e apenas acha que se oferecer pra ajudar já é suficiente. Provavelmente você, meu caro amigo hipócrita, deve ter chegado em casa do trabalho agora. Pois olhe pra mulher com quem você convive e me diga: até quando você vai deixá-la lavar essa roupa suja sozinha?

Créditos para o blog Tudo sobre minha mãeresponsável pelas legendas.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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