Primeiro encontro

Primeiro encontro 1Passei dias fazendo uma retrospectiva desde o comecinho da minha vida até agora. Pensei em tudo que fiz para chegar até aqui. Um ano de preparação. Plano de estudos, minibiografia, diplomas de todos os cursos que já fiz até agora, três cartas de recomendação, muito treino para a entrevista por skype. Sorte? Coincidência? Esforço? Inteligência? Oportunidade? Um pouco de tudo isso, definitivamente. Li e reli todo material que eu tinha escrito em inglês, chinês, português. Procurei caracteres novos, treinei a pronúncia, falei alto para o ritmo ser natural. Respondi perguntas imaginárias. Ensaiei como me comportar, como me sentar e até como andar. Estaria ele avaliando cada uma de minhas ações? E os meus erros de chinês? Eu deveria ter estudado mais. Sempre.

Na véspera, quase perdi o sono. Tive uma crise de choro. Estava intimidada, com medo. Não vou conseguir. Acordei. Minhas mãos suavam e minhas pernas tremiam. Faltou treinar alguma coisa? Graduação, mestrado, experiência de trabalho, metodologia do projeto, objetivos, hipótese, bibliografia, plano de estudo para os próximos semestres. Tudo revisado. Como é que se fala em chinês aquele livro fantástico do Fei Xiaotong mesmo? “From the Soil” em inglês. Esqueci como se fala em chinês. Ah! 乡土中国! Os tons estão certos? “Xiāngtǔ Zhōngguó”, “Xiāngtǔ Zhōngguó”, “Xiāngtǔ Zhōngguó”, “Xiāngtǔ Zhōngguó”. Tá. Acho que dá para entender. Eu não mereço estar aqui. Não sou boa o suficiente. Ele é bravo. Eu já o vi em uma palestra. Brilhante, mas bravo, muito, muito bravo. Não vou conseguir, não vou conseguir. Como eu vim parar aqui?

Ainda tenho uma hora antes do encontro. Vou revisar tudo mais uma vez. Graduação, mestrado, experiência de trabalho, metodologia do projeto, objetivos, hipótese, bibliografia, plano de estudo para os próximos semestres. Agora está na hora. Vou imprimir todo o material que eu tenho sobre meu projeto. Se ele quiser conversar já estou preparada. Preciso ir.

Atraso 7 minutos. Ruim, muito ruim. Atrasar quase 10 minutos no primeiro encontro é quase um crime. Os chineses sempre chegam antes. Estrangeira mal-educada. Com as mãos suando e as pernas tremendo, bato na porta. Um senhor de bermuda e camiseta atende e me convida a sentar. Coloco as mãos suadas tentando parar as pernas que insistiam em tremer. Ele me oferece chá e pergunta sobre mim. A pergunta mais simples de todas. Enrolo a língua, confundo as palavras e ele percebe meu nervosismo. Muito calmamente, espera que eu fale alguma coisa com sentido. Pergunta superficialmente sobre a minha pesquisa. Mais tranquila, respondo o básico. Para me confortar, ele fala: “Já estou vendo que a língua não vai ser um problema para você”. Não? Provavelmente o menor dos problemas, já que a minha falta de formação em sociologia é muito mais grave do que falar um ou outro tom errado.

Ele me convida a assistir a primeira aula e me apresenta seus alunos de pós-graduação. Tenho que falar sobre mim novamente. Estou mais tranquila. A cada 10 ou 15 min o meu novo orientador para a aula e pergunta se eu estou entendendo. Ao ver minha cara de dúvida, explica os pontos principais. Muito educado. A aula é descontraída. Os colegas chineses são gentis e o professor orienta com delicadeza. Ele se surpreende ao saber que não tenho aulas obrigatórias. “Você pode ficar os dois semestres só passeando, é verdade?”. Eu expliquei que não vim aqui passear e que vou levar a pesquisa muito a sério. Digo que não quero gastar nem o meu tempo e nem o dele. Peço recomendação de aulas.

Vamos almoçar no refeitório da universidade. Conversamos sobre o Brasil, China, nossa formação e sobre nossas pesquisas. Uma aluna chinesa conta que fez graduação e mestrado em Stanford e que acabou de chegar na China depois de quase 10 anos nos EUA. Gente… O prof. Qiu compra bolinhos da Lua para todos os alunos. Sobram três bolinhos, que ele me dá de presente. “Para você comer à tarde, Luxiya”. Que amor. Sobrevivi.

Lucia Anderson

Sobre Lucia Anderson

Estou sempre disposta a enfrentar os desafios que a vida ousa colocar em meu caminho. Uma feminista a explorar novos olhares, novos contornos. Escritora, tradutora, amante das letras e dos livros. Adoro conhecer o mundo, mas principalmente, as pessoas e suas mais incríveis histórias. Eu, exploradora de mim.

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