Presas no cinema

Presas no cinema 1

Na sexta-feira à tarde fui ao cinema no Shopping Iguatemi com minha amiga Evelyn de dezoito anos que é cadeirante, atualmente depois de inúmeras cirurgias, ela consegue andar com muletas trechos não muito longos. Assim ela resolveu não solicitar uma cadeira de rodas no shopping. Assistimos à sessão das dezesseis horas do filme “A Bela e a Fera”, fomos as ultimas a sair da sala por querermos ver os créditos finais e a dificuldade de locomoção da Evelyn. Ao sairmos, se notarmos e porque não havia sinalização visível, saímos pela saída de emergência, que assim que passamos se fechou atrás de nós. Deparamo-nos com enormes lances de escadas que a Evelyn não poderia descer, batemos na porta, mas não havia ninguém para ouvir, depois de uns dez minutos, pedi para que a Evelyn me esperasse ali que eu iria buscar ajuda, eu estava muito preocupada por deixá-la sozinha, ela pode ficar muito tempo em pé. Desci os lances de escada correndo e eram muitos, ainda bem que estou em boa forma e não estava com saltos altos, saí do outro lado do shopping, solicitei ajuda para um segurança que disse que avisaria o segurança mais próximo do cinema, o que não aconteceu.

Levei cerca de vinte minutos para conseguir voltar. Quando cheguei lá, um rapaz que foi fazer a limpeza do cinema abriu a porta para a Evelyn. Mas pior estava por vir, resolvemos fazer uma reclamação ao gerente.

A gerente demorou muito para nos atender, disse que tinha escadas para descer e subir e que era só uma e que todo mundo sabe que deve sair pela mesma entrada que entramos e concordou comigo que a sinalização é falha e que é protocolo da Cinemark não ter ninguém para orientar a saída já que “todo mundo” sabe por onde sair, e o que poderia fazer é nos oferecer duas cortesia. Fiquei indignada pelo tratamento que recebemos e fiz uma reclamação por escrito ao Shopping, mas ainda me conformei, então vou transcrever aqui a carta que vou entregar no cinema para a tal gerente.

Prezada senhora Eduarda,

Não tenho certeza se esse é o seu nome, pois estava muito aflita quando lhe perguntei. Sou a acompanhante daquela adorável menina com deficiência física que ficamos presas na saída de emergência de cinema na sexta-feira.

A senhora nos disse que “todo mundo” sabe que tem que sair pela porta que entrou, tratou-nos com frieza e rispidez.

Eu gostaria de lhe dizer que “todo mundo” sabe que não se deve ser rude com as pessoas e que “todo mundo” sabe que quem trabalha com pessoas deve ser educado e amável. A senhora nos disse que se demorou a voltar nos atender porque teve que subir e descer escadas. A senhora nem pode imaginar quantas cirurgias aquela menina fez para poder se sustentar naquelas muletas e que ela não pode ficar longos períodos em pé e muito menos subir e descer escadas. A senhora deveria ser grata a Deus por poder subir e descer escadas e que se ficasse presa numa saída de emergência, não teria problema nenhum.

Um dos seus funcionários nos disse que a senhora estava num mal dia, “todo mundo” sabe ninguém tem culpa dos nossos problemas e gostaria que a senhora soubesse que a Evelyn, esse é o nome dela, nasceu com a deficiência e fez dezenas de cirurgias, milhares de fisioterapias para conseguir se sustentar com aquelas muletas. Nem por isso é indelicada com as pessoas.

Escrevo a senhora para sensibilizá-la e que possa rever as concepções

Acir Montanhaur

Sobre Acir Montanhaur

Faço do mundo a minha morada, conhecendo lugares nunca vistos. Conheço a mim mesma me vendo em outros rostos, em outras culturas. O meu encontro e encanto com outros mundos é o encontro e encanto com uma parte adormecida e inexplorada em mim, que anseia pelo desconhecido.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *