Precisamos falar sobre abuso

Precisamos falar sobre abuso 1É um assunto incômodo, constrangedor, mas agora não tem escapatória. Precisamos falar sobre abuso: sexual, físico, moral, psicológico. Fiquei horrorizada com a notícia sobre o estupro coletivo da garota de 16 anos. Trinta e três animais acabaram com a vida de uma menina. E fiquei mais chocada ainda com a divulgação do vídeo e com a repercussão do caso. Não, não vi as imagens e nem o vídeo (apesar de – infelizmente – ter tido acesso a esse conteúdo). Homens (retardados) indagando o que a adolescente estava vestindo, se ela tinha usado drogas, porquê estava sozinha à noite. Isso não tem absolutamente nenhuma relevância com a barbárie que aconteceu no Rio de Janeiro! Estupros acontecem com mulheres vestindo saia curta e burca; acontece com mulheres sóbrias e inconscientes; estupros acontecem à noite e durante o dia, em lugares públicos ou dentro de casa; estupros acontecem em todas as classes sociais e com mulheres de todas as idades e escolaridades. Não é o que a mulher veste e nem onde ela vai que causa estupro. Quem causa estupro é o estuprador!

É lamentável que ainda existam pessoas que culpem a vítima. Nossa sociedade vê o estupro como algo “aceitável”, “uma falta de controle masculina” e sempre tenta encontrar uma justificativa para culpar a vítima. Sexo sem consentimento é estupro. Não há justificativa para sexo sem consentimento! Não tem “mas” e nem “e se ela…”. Nem se eu sair à noite sozinha, nua, bêbada por ruas desertas, nenhum homem (repito: nenhum homem!) tem o direito de me estuprar! O corpo é meu e eu decido quem pode ou não chegar perto. É tão difícil assim de entender?!

Tenho certeza que todas as mulheres podem se identificar com uma ou mais situações abaixo. Desde os cinco, seis anos, minha avó chamava minha atenção: “sente com as perninhas fechadas”; “está aparecendo um pedaço da sua calcinha, preste atenção!”. Quando eu tinha uns 10 anos, chegando na portaria do prédio toda encharcada depois de andar na chuva, exclamei: “estou muito molhada!”. Minha mãe me repreendeu: “Não fale assim que o porteiro pode pensar besteira!”. Na época não entendi. Aos 11, 12 anos, os homens começaram a mexer comigo nas ruas. Palavras obscenas, assobios, “elogios”. Eu ainda era uma criança! Quando eu tinha 12 anos, um colega da mesma idade apertou minha bunda. Não percebi a gravidade da situação.

Muitas vezes fui xingada por ter desistido de ficar com um cara. Já ouvi gritos e ameaças por não querer transar com um namorado (“se você não quiser transar comigo pela 2a vez hoje… esse relacionamento não vai dar certo. Eu tenho minhas necessidades”). FODA-SE! Já tentaram me beijar à força mais de uma vez, mesmo depois de eu ter dito muito claramente que não queria. Já temi pela minha integridade física mais vezes do que consigo lembrar. Já fui ameaçada de morte por terminar um namoro e, se a polícia não tivesse chegado a tempo, não sei o que poderia ter acontecido. Esses são apenas alguns casos que eu consigo lembrar em poucos minutos. Passei por outras situações que não lembro neste momento ou que simplesmente foram apagadas da minha memória. Os homens são mais fortes fisicamente do que as mulheres. Quase sempre, as mulheres não têm como se defender quando alguém a tenta dominar.

Temos que ensinar os homens a respeitar qualquer mulher, independentemente de onde elas estiverem e do que decidiram vestir. Todos os homens (repito: todos os homens), desde um desconhecido na rua até o namorado que diz que fazer sexo com ele é sua obrigação como namorada precisam respeitar as mulheres. O corpo da mulher é dela, só dela, e é obrigação dos homens entender isso. A luta continua!

Lúcia, a exploradora

Sobre Lúcia, a exploradora

Estou sempre disposta a enfrentar os desafios que a vida ousa colocar em meu caminho. Uma feminista a explorar novos olhares, novos contornos. Escritora, tradutora, amante das letras e dos livros. Adoro conhecer o mundo, mas principalmente, as pessoas e suas mais incríveis histórias. Eu, exploradora de mim.

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