Pedaladas da vida

Embalada pela brisa em meu rosto, as cenas urbanas e seus personagens cotidianos e o som de meu MP3 ditando o ritmo de minhas pedaladas, assim, com a minha bike, me desloco para o trabalho todos os dias.

Para quem, em Recife passava cerca de 1h30 em um ônibus cheio, e em São Paulo tinha que pegar um metrô lotado, cujo até aquele pum caladinho demorava surtir efeito de tão apertado que o espaço era, esta atual realidade de ‘ciclista trabalhadora’, que vivencio na cidade de Campinas, de fato me traz uma grande satisfação.

Tem gente que utiliza a bicicleta nos finais de semana como lazer ou como uma rápida atividade física, mas poucos – apesar de algumas campanhas – como meio de locomoção.

Países como Dinamarca e Holanda apresentam altos níveis de utilização de bike. Lá, 20% a 30% da população costuma andar de bicicleta cotidianamente. Na China, 40% dos deslocamentos urbanos são feitos de bicicleta.

No Brasil estima-se que haja 48 milhões de bicicletas, mas poucos estudos relacionados ao seu uso. Um dos raros trabalhos, realizado em 2001 pela Empresa Brasileira de Planejamento de Transportes, ligada ao Ministério dos Transportes, foi o Planejamento Cicloviário: Diagnóstico Nacional, que coletou dados de 60 municípios brasileiros que revelaram que quase dois terços da frota de bicicletas são utilizados como meio de transporte.

Mesmo ficando dolorida pelo esforço físico, não contar com uma ciclovia na cidade, levar brecada de alguns motoristas ‘sem noção’, ganhar olhares tortos de alguns cidadãos quando, tentando não ser atropelada em dias de trânsito intenso, ando devagar pela calçada com a bike, mesmo quando algum louco sai de alguma garagem e não olha quem está passando, ou cai aquela chuva repentina e me molho toda, talvez isso tudo aconteça em virtude do que afirma o filósofo Isah Andreoni, quando fala  que “o verdadeiro obstáculo, que nos impede de inserirmos a bicicleta em nossa rotina, está em nossas cabeças, nas associações que imediatamente estabelecemos, tendo o carro e outros meios de transporte como referência.”

Por isso prefiro mesmo é me apegar às cenas que provavelmente dentro de nenhum carro, metrô ou ônibus eu prestaria atenção e que me trazem um retorno da vida maravilhoso: o sorriso daquele senhor que todos os dias me cumprimenta da sacada de sua casa; o simpático mendigo que todas as vezes que passo ao lado da sua ‘casa esquina’ pergunta se estou indo passear, a senhorinha que me para só pra dizer que ela também pedala (pasmem, uma mulher por volta de 70 anos) e ainda me parabeniza pela atitude saudável, aquela professora que ao me ver esperando ela e seus alunos atravessarem a faixa de pedestre, me aponta como exemplo de cidadã sustentável e do ‘coroa sangue bom’ que grita do seu carro ‘é isso aí minha irmã!’.

Ao responder a manifestação daquele homem com um gesto de paz e amor, percebo que mais que o gesto em si, estes dois valores devem ser as principais molas propulsoras de nossas ações. E isto tudo é revelado em meros 40 minutos diários de pedalada, instantes estes que, sem dúvida, dão sentido a uma vida inteira.

Na garagem do meu prédio, antes de pedalar pela vida rumo ao trabalho

 

Daniella, a intensa

Sobre Daniella, a intensa

Para viver preciso acreditar nos sentimentos mais profundos que a alma humana pode oferecer. O infinito para mim é bastante atraente e o "meio termo" praticamente não existe. Tenho uma alma intensa, carismática, dramática. E é com toda essa intensidade que procuro dar o meu melhor como mãe, esposa, filha, irmã, amiga, jornalista, poetisa!

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