Para Kayla

kaylaNaquela noite recebi uma mensagem estranha de irmã. Foi por meio dela que conheci Kayla e também quis segurá-la pelas mãos.Fiquei inquieta depois daquela conversa, imaginando quem seria aquela mulher. Resolvi procurá-la. Vasculhei a Carta, a Folha, o Estado, o Globo… Todos, porém, ignoraram a sua história. Aquilo me incomodou. Quanto mais procurava, mais saltavam imagens de passistas e famosas seminuas, jogos para que o internauta associasse o rosto da musa à respectiva bunda, homens vestidos de mulher, mulheres vestidas de homem. “Como o brasileiro é criativo!”, “No Carnaval tudo pode!”. Foliões se divertiam com suas fantasias pelas ruas e avenidas. Passadas as festividades, trocariam a vestimenta por outra mais conveniente, atrás das quais escondiam todas as suas moléstias.

A fantasia que deram a Kayla já não lhe servia mais. A vida inteira foi travestida para parecer mais aceitável, e era pesado demais carregar todo aquele adorno. Então resolveu mostrar-se de cara limpa, e não foi a única. Era preciso coragem. Negra, travesti. “Nada de valor foi perdido”, “Ah, esses monstros que tão sempre se achando as vítimas da sociedade”, “Estamos aceitando de tudo nesse mundo, pouca vergonha isso”, “Mais um caso de gente que comete suicídio por ver a burrada que fez”.

Não estamos nos aceitando, e é preciso coragem. A cada olhar de repulsa, a cada dedo apontado, a cada piada feita ou violência física cometida, a distância até o térreo se estreitava. “Como desistir de quem você é? Isso não significa a própria morte? E quantas vezes nós morremos esse mês?”, por fim ainda indagou. E a cada dia nós desistíamos de Kayla. Naquela quarta-feira, nós desistimos de Kayla. Nós.

Pois neste mês, na Quarta-feira de Cinzas, uma semana depois que conheci Kayla, blocos saíram pelas ruas, quadras comemoraram a campeã do Carnaval, clima de festa e ressaca. Naquele dia, celebrou-se a melhor fantasia, o melhor enredo, o melhor conjunto, a melhor evolução… E quantas de nós morreram naquele dia?

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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