Pais e filhos – uma relação em extinção (?)

 

Como uma professora do avesso, sou uma verdadeira fã das reuniões de pais. Em geral, reuniões de pais são tidas como algo sacal, em que os pais se recusam a aceitar quem são seus filhos a quilômetros de distância deles. Pessoalmente, penso que este é o momento em que muito professor veste seu papel de vítima e culpabiliza o mundo por todas as atitudes dos alunos. Quanto a mim, sempre acho que é a unica forma de entender minimamente com quem se lida em sala de aula.

E é observando as reações dos pais ao ver uma estranha – eu – falando de seus filhos que consigo antever um colapso da relação familiar tal como tradicionalmente estabelecida. A preocupação em prover vem substituindo a de se relacionar. Delegar se tornou mais importante que acompanhar. E professor tem que saber educar e não apenas ensinar. Mais do que uma suposição feita em mesas de bar, esta realidade vem tomando conta do dia-a-dia escolar. Crianças chegando cada vez menos apresentadas ao mundo e com uma dificuldade gigantesca de lidar com a frustração – o ‘não’ é uma novidade apresentada pela escola.

As expressões de surpresa quando escutam “Seu filho chora quando não é o primeiro da fila.” ou “Ele não tem feito as tarefas e periga reprovar.” são seguidas imediatamente por uma expressão de surpresa, como se ouvissem falar de um estranho, e não de seus próprios filhos. Quem é esse ser que, longe de mim, se comporta como se não conhecesse o mundo ou ainda como alguém extremamente sentimental? Quem é esta estranha que fala de uma atitude que eu nem sabia que meu filho tinha?  E, em seguida, vem o pior: Por que eu tenho a sensação de que ela conhece meu filho melhor do que eu?

Imagino que este misto de choque, culpa e até um pouco de ressentimento deva ser difícil de engolir para um pai que acorda cedo e trabalha até tarde exatamente para tentar oferecer ao filho o que, talvez, ele não pôde ter antes. Mas acredito que o erro de tudo está exatamente no verbo: ter. “Meu filho tem aulas de inglês, tem aulas extras até 15h no colégio-particular-caríssimo, tem casa, tem piscina, tem um iPad que eu dei para ele no aniversário, já que eu tinha viajado a trabalho”.  Tem tanta coisa e nada que ele vá poder se lembrar de fato. Depois que esse iPad quebrar ou ficar velho, a única coisa que fica é que o pai não estava lá no aniversário. E as consequências emocionais serão sentidas através do caráter moldado na ausência e na  máxima de que o material substitui o sentimental.

E por mais que isso pareça óbvio, a sociedade está cega a necessidade de atenção que urge nas novas gerações. Comportamentos são totalmente condicionados pelo ambiente. E se na esfera familiar não existe ambiente nenhum, é como se um buraco negro fosse puxando o emocional da criança para dentro dele e, com o tempo, ela vai se transformando em alguém vazio, e, pior ainda, triste. E é muito irônico que o processo se dê exatamente pela vontade de oferecer tanto. “Vou trabalhar mais para poder pagar este curso, porque vai ser importante para ele. Eu, por exemplo, não tive inglês e demorei tanto depois para aprender.”

Não que eu seja a favor do ócio e não é este o objetivo desta reflexão. Mas sou a favor de que haja honestidade entre o que se oferece  materialmente e emocionalmente. E mais: que não se fuja de responsabilidade intrínseca da família, que é apresentar valores, regras, e, indubitavelmente, iniciar o pequeno ser no caminho do afeto, para que ele cresça sabendo amar as pessoas e não apenas o que ele tem. É papel da família plantar a semente do caráter e não do educador. Meu papel, orgulhosamente, é garantir que ele consiga colocar isso em prática durante o convívio social com a diferença e que consiga evoluir a partir da base que chega até mim todos os dias. E isso se torna muito difícil quando chega uma criança que se ressente da menor negativa ou derrota, ou ainda que se surpreende ao receber carinho.

Entendo que muitos pais achariam sentimentaloide falar em carinho em um mundo cruel e frio, que está sempre julgando as pessoas pelo que elas podem oferecer. Mas então eu deixo uma pergunta final: O seu filho, neste mundo materialista e competitivo, será mais uma pessoa fria incapaz de se relacionar com os demais ou você pretende que ele seja alguém de caráter, capaz de fazer a diferença?

 

 

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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