Página em Branco

Ok! Hora de organizar as ideias no papel. TV desligada, silêncio em casa, nenhuma pendência para me impedir, ninguém para me distrair. Página em branco à espera de pensamentos agitados, mas que teimam em não achar a porta de saída. Talvez um café os agite ainda mais e um deles resolva sair. É isso, um café bem forte. Ah, era só o que me faltava, não ter pó justo agora. Cheia de ideias e sem café para tomar. Cacete, vou ter que ir à mercearia comprar. Mas quem sabe uma volta não ajude a organizar os pensamentos.

Conversa de elevador, boa tarde ao porteiro, sol na cara e, na mercearia, passos apressados em pegar o pão mais quentinho e o melhor lugar na fila. Segundos que parecem ser decisivos para cada uma daquelas pessoas. Aposto que, após serem atendidos e enfrentarem a fila, não terão que prestar contas a ninguém pelo pão que não estará mais tão quentinho ao chegarem em casa. Comerão sozinhas em frente à TV. Ou nem comerão, era apenas o pão para o café da manhã do dia seguinte. Por que tanta pressa, então? Finalmente a minha vez. Melhor ir pra casa tomar logo esse café e, finalmente, escrever.

Como é bom o cheiro de café passado! Melhor do que o próprio café é o cheiro que se espalha pela cozinha depois que a água quente se mistura a ele. Momento mais que propício para escrever. Página em branco e, ao lado, o café. Olhei a caneca e me lembrei do dia em que a ganhei. Fora presente de um amigo que se mudou há tempos daqui. Poxa, como será que ele está? Não custa lhe deixar um recadinho antes de escrever. Menos uma pendência para resolver depois.

Pronto! Apenas um e-mail curto, sem muitos detalhes. Bem, já que estou na internet, vou aproveitar para dar uma olhada rápida nas últimas notícias. Tenho trabalhado tanto que nem tenho tido tempo para ler os jornais. Quem sabe algo que me inspire… Acordos, jogos, resultados, receitas, mortes, tragédias, tempo, lançamentos, aposentadoria, candidatos, eleições, nascimentos, promoções…. Tantas coisas sobre as quais falar, tantas coisas das quais é melhor se esquecer. Notícias que só carregam ainda mais os pensamentos. Ou foi apenas o café. Tic-tac! Tic-tac! Página em branco, a mente borbulhando e nenhuma frase escrita. Melhor sair da internet para não perder o foco. Talvez se me atarefar um pouco darei brecha para as ideias, que andam tão tímidas, se organizarem naturalmente. Boa hora para pôr os papéis da gaveta em ordem.

Ao abri-la, surpreendo-me com palavras que nem me lembrava ter escrito. Não pareciam ser minhas, não as reconhecia. Ri de mim mesma, surpresa com as coisas que pensava e sentia. Não, não era eu! Não podia ser eu. Tão diferente. Uma pessoa que já não existe mais estava guardada ali. E me deparei não só com essa pessoa, mas com fotos, cartas nunca enviadas, cartas recebidas, sonhos engavetados para que fossem esquecidos, lembranças guardadas para que não fossem perdidas. Entre risos e lágrimas, por fim organizei tudo e fechei a gaveta. Não devia ser à toa que tudo estava ali; e que ali, então, ficasse. Tic-tac, tic-tac. Esse silêncio já está me incomodando; melhor pôr uma música e tentar escrever novamente.

“Ando com minha cabeça já pelas tabeeeeelas. Claro que ninguém se importa com minha aflição”; “enquanto isso, anoitece em certas regiões”; “tive razão, posso falar”; “mas lendo atingi o bom senso”; “You say goodbye and I say hello”; “vim, vim, eu vim…”. Vim e a página em branco continua aqui, imaculada a me encarar. À sua frente, pensamentos revoltos que, mais uma vez, não acharam a porta de saída. Tic-tac, tic-tac. Talvez mais tarde. Talvez amanhã. Tic-tac. Talvez depois de mais um café ou uma volta no quarteirão. Tic-tac, tic-tac. Talvez não seja a hora certa para começar.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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