Órfãos de tudo

Pobre povo brasileiro! O que nos resta se da segurança esperada emergem crimes, tortura, desconfiança, descrença, medo, pavor, excessos e horror? Os últimos episódios policiais no país nos colocam numa verdadeira encruzilhada. Já somos órfãos de justiça, de política séria, de ética, dos direitos mais fundamentais e, só mesmo os mais entusiastas achariam que poderia ser diferente, da segurança. Estamos órfãos de tudo.

Não que o fato seja novo. De tempos em tempos, a sociedade se vê massacrada e chacoalhada com uma enxurrada de casos violentos e que nos indignam, mais e mais,  por seremformulados, gestados e executados por aqueles, sobre os quais apostamos todos os nossos anéis para proteger-nos.

De norte a sul, o cenário apavora. O desaparecimento do pedreiro Amarildo Souza, na favela “pacificada” da Rocinha, daqui a pouco completará dois meses. A mesma Polícia que o levou não consegue dizer onde ele está. O mais irritante é que tudo que poderia ajudar na comprovação dos fatos estava quebrado, câmeras da UPP, GPS da viatura – aqui não se trata de pobreza e falta de investimentos, mas de conveniência.

Pobre povo brasileiro! Extorsões de policiais a criminosos pipocam em todos os cantos, garantindo caixinhas volumosas a muitos grupos; envolvimento a assaltos em caixas eletrônicos com a participação de policiais era para não ser mais notícia – porque de inédito não tem nada; sequestros, monitores descendo as mãos em menores na Fundação Casa; descrença na elucidação de casos como a da jovem Thainá da Silva, no Paraná, onde a tortura foi o método para dar resposta rápida à sociedade – e  um crime horrendo gerou outro de proporções tão nefastas quanto o primeiro pela acusação de inocentes. Com tudo isso, não dá mesmo para pensar que vivemos tempos de tortura nunca mais? Os contornos dos crimes estão, cada vez mais, mais cruéis.

Além da força da Lei, percebemos que nossas polícias manejam e manobram outros instrumentos para forçar confissões. Autoridades abusam da visibilidade na mídia para construir versões e histórias mirabolantes – que vai que pegam!? A morte do casal de policiais, avó, tia e filho, por enquanto, ilustra bem isso. Sem que as provas objetivas comprovem os fatos, que a perícia conclua os laudos, argumentos são construídos e maciçamente divulgados – tornam-se verdades. A imprensa, também, pobre, divulga essas “verdades”, sem questionamentos.

Pobres, também, daqueles que nadam contra a corrente neste mar para tubarões. Sempre me questiono como cidadãos sérios podem abraçar as polícias como ofício, ganhando tão mal, correndo tantos riscos, sem reconhecimento, sem liberdade, com tanta rigidez? Mas conheço alguns vocacionados, como em qualquer outra profissão; e sei que existem muitos outros. A generalização, todos sabemos, é burra.

Já precisei da Polícia e não tenho queixas pessoais, mas os gritos coletivos nos ensurdecem neste momento. E, por isso,  faço eco à toda sociedade que clama por uma nova polícia, por mais segurança, por boa – essencial seria, excelente – remuneração a esses profissionais para que não fossem contaminados ou cooptados pelo crime, que deveriam combater;  para que não houvesse espaço para o crescimento das bandas podres; por políticas de incentivo e premiações aos distritos policiais que conseguissem reduzir as mais diversas formas de violência e por punições exemplares aos criminosos pelas corregedorias, ouvidorias e pela Justiça.

Mas o que podemos esperar se, nestes mesmos distritos, só existe sucateamento? Se os governantes e autoridades acham normal mais um caso Amarildo, pois antes eram vários? Se gente séria, combatente, é afastada? Se as corporações são corporativistas? Se a impunidade rola a solto? A resposta não poderia ser menos cruel: só podemos ver crescer, ainda mais, a nossa miséria…

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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