Onde está essa tal felicidade?

Você não pode apostar, nem acreditar, que 100% da sua felicidade venha do trabalho. A frase não é literal, mas muito próximo da que ouvi na semana passada; e, me trouxe profunda reflexão. Ela foi dita pelo estilista paulista, Alexandre Herchcovitch, numa entrevista à Marília Gabriela. Abusando da carona, eu diria que não podemos apostar que nossa felicidade esteja num único objetivo, seja ele qual for: uma carreira, o sucesso, uma conquista qualquer, um relacionamento, uma paixão, o futebol que seja – neste país de loucos por bola.

Somos muito mais que seres que trabalham por mais que tenhamos alcançado o topo ou não da carreira. Amamos, brincamos, rimos, choramos; às vezes, parecemos máquinas; às vezes nos desligamos. Temos a cultura – música, literatura, pinturas e tantas outras artes – e o lazer para complementar; e olha que tudo isso ainda não nos preenche. Temos família, amores, amigos, conhecimentos, virtudes e falhas enormes, questões a superar, temas resolvidos, desafetos – inimigos, nunca. O importante é não sentir raiva, nem ódio, não desejar que o mal se pague com o mesmo. E isso, eu não sinto e não desejo a ninguém. Diante de uma frustração, perda ou decepção, basta dar tempo para que tudo se acomode e volte não à normalidade – que muitas vezes não é possível – mas a um novo tempo que trará muitos e novos desafios. É seguir sempre em frente. Como no bordão de Zé Simão, quem fica parado é poste; e, complemento, quem anda pra trás é caranguejo; só nos resta dar passos adiante.

Mas, voltando à temática, quando apostamos nossa vida numa só coisa, ela que já é tão tênue, fica à mercê de todo caos; e sequer percebemos o tanto que abrimos mão de outras coisas por uma obsessão. É comum pensarmos: se tiver que passar por isso, não sei se sobrevivo. Se ficar desempregada, morro. Não sei como continuar vivendo, se isso ou aquilo me ocorrer. E aí basta um olhar mais atento para ver que um problema é só um problema, que uma perda por mais dolorosa que seja precisa ser superada; que uma vitória também é só momentânea, tem a duração do instante, depois tudo passa.

Precisamos de muitas coisas para sermos realmente felizes ou tristes – a felicidade e a tristeza não estão num único lugar. Apesar que tem gente que fica  triste por pouco, pois está acostumado com muito; e, no primeiro tropeço, já cai de um abismo. E gente quem tem pouco, de repente, precisa do universo contra pra ficar só um dedinho aborrecido. A dor nunca é a mesma pra cada um, nem a alegria.

A minha única defesa é que essa tal felicidade não pode estar fixada nem no trabalho, nem na religião, nem num relacionamento, pois somos seres complexos, cujo o todo é uma infinidade, uma infinita possibilidade de coisas, sentimentos, uma somatória. A parte é só a parte. Não podemos tomá-la pelo todo.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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