Olhos de Menina


A menina pisava distraída em folhas secas espalhadas pela praça. Croc, croc… Sem querer pisei em algumas e me lembrei de quando era pequena. Adorava pisar em folhas secas no trajeto da escola para casa; cada pé em uma. “Agora só pode pisar nos quadrados escuros”; “quem chegar por último é a mulher do padre”; “vamos ver quem segue os paralelepípedos sem cair”. Paralelepípedo. Sempre achei essa palavra engraçada e difícil de dizer, por isso era a que eu mais usava quando brincava de forca. Parecia mais nome de algum dinossauro feroz. Criança tem muito disso: inventa, imagina, diverte-se com as coisas mais imprevisíveis e banais. E aquela menina ia como se pisar em folhas secas fosse a coisa mais divertida que já fizera. “7, 8, 9… Vou pisar em todas as folhas, você vai ver, mamãe.”. “Não vai. Enquanto você pisa em uma, outras duas caem atrás de você.”. “E por que elas caem?”. “Por causa do sopro forte do vento, não está sentindo?”. “Hum, vento gelado.”. “Sim, agora vamos.”. “Olha, olha aquela nuvem! Não parece um urso?”. “É melhor você olhar por onde anda, isso sim!”. “Nossa, por que aquela mulher é tão barriguda?”. ”Ela está grávida.” “E como ela ficou grávida?”. “Ela comeu uma semente de melancia.”. “Que pena, eu gostava tanto de melancia.”. “E por que não gosta mais?”. “Porque não quero ficar grávida.”. “Você não vai ficar grávida se comer melancia.”. “Mas você não disse que ela ficou grávida por causa da sementinha da melancia?”. “Deixa esse assunto pra lá. Você é muito nova pra falar disso.”. “Já sei, vamos brincar de ver quem pula mais alto?”. “Não tenho mais idade pra isso, menina”. “Tudo bem… Olha, mamãe, que borboleta linda! Não é verdade que quando uma borboleta passa é sinal de sorte?”. “É, deve ser…”. “Vem aqui borboleta da sorte. Vem aqui… Vem…” PLAF! “Aiii!!”. “Não olha por onde anda, menina? Ainda bem que não se machucou. Você precisa prestar mais atenção.”. “É, acho que aquela não era a minha borboleta da sorte…”. Quieta e cabisbaixa, a menina seguiu seu caminho sem pisar mais em folhas secas, cada vez mais desinteressada pelos desenhos que as nuvens formavam no céu, sem correr atrás de borboletas, sem tentar entender o porquê das coisas… Croc, croc! Quando olhei em volta, a menina já não estava mais lá. Cresceu. Parou de prestar atenção.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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