O suéter vermelho

O suéter vermelho 1

Não gosto muito de falar da minha infância porque não tenho muitas lembranças felizes.

Mas gostaria de compartilhar uma história que me marcou profundamente. Quando eu tinha sete anos e estava no primeiro ano de escola, eu tinha uma professora chamada Havair, minha primeira professora. Nas minhas lembranças de criança, ela era linda, loira com os cabelos compridos, tinha as mãos lindas e eu adorava quando ela pegava no meu lápis para me ajudar as escrever e o lápis ficava com marcas de giz das mãos dela. Até hoje, quando escrevo na lousa e pego um lápis e o vejo sujo de giz, me lembro dela.

Dona Havair me marcou muito não só por sua delicadeza com as crianças mas com um gesto que fez comigo.

Quando eu era criança, erámos muito pobres. E eu me lembro até hoje dos invernos de Campinas, tínhamos apenas um cobertor muito fino e nas noites frias, eu tremia de bater os dentes. Até hoje quando me sinto insegura e desprotegida, é comum eu acordar tremendo de frio e não há cobertor que me aqueça.

E no inverno dos meus sete anos, a minha professora deu-me um suéter vermelho. Ele me disse que a mãe havia tricotado para ela, mas ela tinha crescido e não lhe servia mais e ela queria dá-lo a mim. Eu me senti a criança mais especial e sortuda do mundo. Com tantas crianças na sala, ela deu o suéter para mim. Ele era grande, mas tão quentinho, usei durante anos e tinha o maior cuidado do mundo para não sujar.

Mas eu cresci e o suéter também ficou pequeno para mim. Eu queria guardá-lo para sempre. Mas no inverno dos meus quinze anos, eu trabalhava durante o dia e estudava à noite, voltando de ônibus para casa por volta das 22h30min, vi um menino com uma caixa de engraxate, magrinho, sem agasalho, com uma camisetinha velha tremendo de frio, dentro do ônibus. Ao se aproximar da minha casa, implorei ao motorista que esperasse um minuto para um buscar um agasalho para a criança. Desci do ônibus correndo, entrei em casa, peguei o suéter vermelho e o dei para o garoto. Nunca vou esquecer o sorriso no rostinho dele.

Às vezes penso em como o menino se sentiu. Será que ele se lembra até hoje da noite em que ganhou o suéter vermelho? Porquanto tempo ele usou o suéter? Será que tinha cuidado para não sujá-lo? Será que ele se sentiu especial também?

Aquele suéter fez com que eu me sentisse especial, capaz de vencer qualquer desafio da vida. Eu não era uma criança pobre sem agasalho. Eu era uma menina que ganhou de sua professora, o suéter mais lindo e quentinho do mundo.

Sempre me lembro da Dona Havair, suas lindas mãos sujas de giz, do seu sorriso de covinhas quando me deu o suéter vermelho.

Escrever esta história me fez chorar e pensar que simples gestos podem mudar a vida de alguém para sempre.

 

Acir, a viajante

Sobre Acir, a viajante

Faço do mundo a minha morada, conhecendo lugares nunca vistos. Conheço a mim mesma me vendo em outros rostos, em outras culturas. O meu encontro e encanto com outros mundos é o encontro e encanto com uma parte adormecida e inexplorada em mim, que anseia pelo desconhecido.

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