O que tem de especial no que você faz?

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Professor em ação durante aula pelas ruas de Dublin. Foto: Andressa Vilela – 2012

“O que tem de especial nisso aqui?”.
Era assim que meu professor irlandês de fotografia começava a avaliar as fotos que eu fazia. Assim comigo e com os outros, não havia elogio, apenas pontos a melhorar naquelas imagens em que ele não via nada demais. A turma ficava chateada, e eu, frustrada e com vontade de mostrar a ele que poderia ser boa. Estudava bastante em casa, fazia cursos online, ao vivo, de fotografia com artistas de vários países, praticava bastante. Fui construindo uma base, enquanto aquela e outras perguntas ficavam em minha mente a cada clique. “O que tem de especial?”.

“Uma câmera simplesinha na mão de qualquer pessoa poderia fazer isso aqui, você não acha? Pense mais”. O professor era jovem, acredito que em torno de 40 anos. Gostava de ir para a aula despojado, de calça jeans e moletom, no estúdio montado na escola que ficava no centro da cidade de Dublin, na Irlanda.

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Caderno com anotações e colagens

Alunos subiam as escadas com as câmeras na mochila, caderno cheio de colagens de fotos profissionais que ele pedia nossa análise, milhares de anotações em inglês. A cada nova aula nos ensinava a teoria, mostrava trabalhos de fotógrafos conceituados, passava desafios e saía conosco nos arredores da escola para fotografar, ou nos auxiliava no estúdio. Alternava entre fotografia de rua, imagens de produtos e alimentos, técnicas de fotos de moda. E eu esperava pelo momento em que ele iria gostar de alguma coisa.

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Andressa Vilela fotografando modelo em aula na Irlanda

A lembrança de elogios importantes do passado, do meu professor de fotografia na faculdade, vencedor de prêmios, me fazia continuar tentando ser boa no presente. Para o irlandês, o oposto. “A expressão da pessoa está tensa”, “o cabelo está me incomodando”, “aqui ficou torto…”, “que pena, poderia ter ido mais para a direita”, “você pegou um fundo ruim”, “a roupa está amassada”, “faltou luz”, “sobrou luz”, dizia ele enquanto passava as fotos no telão para a turma ou via no computador as imagens.

A primeira redenção veio com um retrato simples. “Gostei. Expressão boa, fundo não distrai. Bom”. Fiquei surpresa. Outro dia, em que pediu criatividade no estúdio, pedi para meu modelo segurar o extintor de incêndio, o posicionei bem perto do fundo branco que eu havia colocado, regulei os equipamentos para fazerem uma sombra marcada e, bingo, o professor gostou. “Isso ficou muito bom. A sombra está bem definida, a ideia do extintor foi ótima, as poses estão bacanas. Ótimo”. Que sensação boa ouvir aquelas palavras. Finalmente.

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Foto: Andressa Vilela

Dali em diante vieram mais elogios que críticas. Às vezes olho para as fotos anteriores e acho que elas não estão tão ruins como ele dizia. Mas a melhora foi enorme e até hoje, a cada foto, respondo mentalmente a todas as perguntas do meu professor antes e depois de clicar. Alguns desistiram do curso. Mas, será que se ele não tivesse seguido essa linha, eu teria estudado tanto? Teria essa observação apurada que tenho hoje? Seria tão detalhista?

Agora reformulo a pergunta: “são esses detalhes que fazem uma imagem especial?”. Na verdade, eles são importantes por inúmeras razões estéticas e técnicas, mas não sustentam uma imagem sozinhos. Clichê ou não, a foto precisa de uma energia que não se explica, aquela luz que se percebe mas não se sabe ao certo de onde vem. É uma união entre fotógrafo e fotografado, histórias de vida que se cruzam naquele momento decisivo do clique. E essa é muito mais difícil, e sublime, de conseguir.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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