O obsessão pela desmistificação

 

 

Em uma palestra na PUC-Campinas, o especialista em tecnologia, André Bordignon, fez uma afirmação muito interessante que eu peguei emprestada para minhas reflexões. “Estamos vivendo uma crise de instituições”, disse ele. “Não acreditamos em mais quase nada e estamos nos reinventando neste sentido”. Maravilhoso para um momento de descrença em política (a que partido ser fiel com os nomes de todos envolvidos em escândalos das mais esdrúxulas variantes de corrupção?), em ídolos (os musicais de sucesso são “fabricados” ou mortos, os esportistas são “vendidos” ou sem apelo carismático relevante) e mesmo em veículos (tudo é mentira em todos os meios de comunicação, construindo uma rede de conspiração maior do que se pode imaginar).

No entanto, a reflexão do jeito que eu tomei para mim, foi nas consequências da descrença. Talvez estejamos nos tornando uma geração de desconfiados, que sentem dificuldade em emprestar seus sentimentos a qualquer ideologia ou talento sem que ele se faça merecedor do nosso tempo e do nosso afeto. Até aí, tudo bem. Mas acredito que exista uma linha tênue separando uma desconfiança saudável de um ceticismo crescente que busque o tempo todo a desmistificação, um excesso de “São-Tomezisse” que nos torne um bando de boçais concretistas e incapazes de abstração.

Embora tenha invocado a menção religiosa, não falo de fé. Falo, por exemplo, da reação ao ver um flashmob romântico online e, ao invés de comentar algo banal como “Meu Deus, que babaca” ou “Ai, que lindo”, sinta-se uma necessidade incontrolável de questionar a veracidade e colocar em xeque o sentimento envolvido e cair num abismo blasé de “Isso não existe”. Pior: após chegar a este abismo em que nada existe a menos que se prove, cria-se um casulo em que é risível a atitude de quem não compartilha do mesmo cinismo. Não há ignorância maior do que rir da opinião dos outros.

Acredito que uma pitada de desconfiança para uma geração acostumada a encontrar tudo pronto é excelente, para separar o joio do trigo e resgatar a meritocracia. Só acho bom manter um olhar leve em relação à vida para que a consciência não nos transforme em um bando de rabugentos incapazes de crer no que não podemos ter certeza.

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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