O mais doce beijo roubado

“Tira já esse beijo, eu não pedi!” Essa era uma das frases mais faladas pela criança de uns 3 ou 4 anos, cachinhos nos cabelos, toquinho de gente, muito falante e esperta. A mãe, com toda a sua sabedoria, dizia: “tiro sim, meu amor” e dava outro beijo na testa para “tirar” o anterior e deixar a menina tranquila. O mais doce beijo roubado 9

Criança essa que escrevia músicas, fazia juramentos e apresentações na escola representando a turma, ficava toda suja de terra sempre que brincava de fazer comidinha, parou de roer as unhas porque queria ganhar um anel e enfrentava crianças maiores para defender a irmã mais velha. E que por muitos anos sofreu bullying na família porque ficava doente de saudades, literalmente, de um primo distante.

A vaidade era grande nessa menininha, alérgica a brincos, mas que queria colocá-los de todo jeito. Que tinha muitos amiguinhos e não levava desaforo pra casa. Que andava de bicicleta e soltava pipa com o pai. Um pouco maior, começou a dirigir um espetáculo de dança na garagem de casa. Ensinava as coreografias para as amigas, convocava os pais e parentes para assistir. Brincava sem cansar. Uma criança muito questionada pelos adultos que queriam ouvir suas respostas rápidas e criativas. Saudável, feliz e dá pá virada, como diziam.

Um dia essa criança se perdeu. Naquela transição que acontece com todos os que têm sorte de continuar na estrada da vida, aquela em que quando se vê já é adolescente, ela sumiu. Tinha tanta gente no caminho, bombardeio de informações e emoções, que foi O mais doce beijo roubado 1difícil ela permanecer. No lugar, estava outra pessoa e não havia o que fazer para achar aquela menina. Como acontece com quem não se faz presente, foi ficando cada vez mais esquecida. Não dá para trazer de volta alguém que não cabe mais no contexto. Não é possível voltar a ser criança. Mas algo não estava certo.

Com muito trabalho, fiz uma casinha para nós e convidei aquela menina a voltar. Demos um abraço bem apertado e eu expliquei para ela que agora, adulta, sou eu quem comanda nossa vida, mas que a amo muito e quero ela sempre aqui em nossa casinha arejada. Para que eu possa protegê-la e ela, por sua vez, seja sempre uma referência linda e sábia em meu coração, me ajudando a construir as próximas de mim que ainda estão por vir. Ela sorriu, como sempre. Agora vá brincar. Obrigada, minha criança.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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