O guarda-roupas

Eu queria que ninguém abrisse a porta. Pelo menos era isso que eu pensava. A vergonha de ver ali exposto o que eu escondia de mim mesma. Uma bagunça disfarçada, organizada na superfície, mas com tanta coisa ocupando lugares que não são delas. Algumas escondidas lá no fundo, na última prateleira de cima, outras embaixo da última gaveta. Palavras que faziam parte de antigas recordações.

Olhando para cima, não tive como fugir daquele quadrado de madeira com um cadeado cuja combinação sequer passa pela minha cabeça. A caixa já tão desgastada, com lascas de um material frágil, pinos enferrujados na parte de trás, facilmente arrancados ao forçar, fizeram meu coração acelerar por um tempo. O guarda-roupas 3

Por muitos anos não quis mexer naquela caixa. Estranho como nada mais faz sentido, mas olhar para coisas antigas do jeitinho que foram guardadas te faz voltar no tempo ou parecer que ele não passou. Que você ainda tem a mesma idade, num sonho de que todos os anos e vivências foram só uma imaginação.

Naquelas frações de segundos tive que mover os olhos para fora da caixa e ver que eu estava aqui, hoje, e não naquele tempo. Fui jogando fora o que não era mais importante e separando os pequenos tesouros, objetos e papeis.

Outras caixas, estas sem cadeados, guardavam outros destes diamantes, menos secretos para uma menina de antes. Para alguns deles tive que olhar bem, respirar fundo, como se sugasse pra dentro do meu peito o que de bom estava ali para guardar onde cabem as boas recordações. Enchi bastante e guardei na memória a sensação de todas as palavras. Um sopro. E assim tantas e tantas caixas se transformaram em uma. Um carinho concentrado de boas lembranças para recordar só aquilo que realmente importa ser mantido. Enchendo e esvaziando ao mesmo tempo a caixinha dentro da gente.

Sacos e sacos plásticos cheios do que antes ocupava espaço em meu guarda-roupas e meu pensamento saíam do quarto. Já não tinha mais vergonha de deixar aberta a porta, mas ainda havia muito o que arrumar. Lá no alto, muita poeira, outra caixa com dois destinos, pertences que me desfiz, papeis que também guardei. O sol ia baixando lá fora, entrando pela janela, fazendo um feixe de luz que mostrava a poeira cambaleando, girando, movendo-se pelos ares.

Ainda resta uma gaveta. Ainda sobraram alguns papeis não vistos. Será que algum dia conseguimos organizar tudo? Cada dia entram coisas novas na nossa vida, no nosso quarto, no nosso guarda-roupas. Mas, as antigas… ah as antigas estão dispostas, com carinho, em seu devido lugar.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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