O colete azul dos dias úteis

Uma rua pequena de uma cidade grande, em um bairro movimentado durante a semana, com muitas clínicas, muitos carros e poucas vagas em que se pode estacionar, seria apenas mais uma rua como muitas outras. Carros sobem, pois a mão é única, e rodam pela quadra, subindo novamente outras vezes. Pessoas atravessam sem olhar, impacientes buzinam para quem está procurando um endereço em seu veículo vagaroso, caminhões geralmente têm dificuldade em passar na ruazinha estreita e cheia.

Pedestres caminham do ponto de ônibus, que dá para ver ao fim da rua, do outro lado de uma avenida movimentada. Provavelmente rumam em direção a seus locais de trabalho, visto que o movimento de pernas apressadas aumenta nos horários de chegada, almoço e saída usuais das empresas.O colete azul dos dias úteis 1

Nessa rua tão comum as clínicas já foram casas, vendidas para comércio, bem como casas de ruas ao redor. Uma mistura de comércios e residências, como faz parte a evolução de uma cidade. Um senhor de colete azul, boné, óculos, sentado em sua cadeira dobrável, cumprimenta e é cumprimentado por quase todos que passam na rua. “Oi, Seu Zé! Bom dia”, e ele: “Bom dia! Dia feliz! ”. Às vezes Seu Zé reclama do tempo, seja para o frio ou para o calor, mas está sempre lá, sorrindo com disposição para quem olha para ele.

Nos dias de frio, é difícil querer usar uma blusa de manga, por mais que tenha vários lembretes diários. As mulheres passam: “Seu Zé, está frio! Vai colocar uma blusa”… Passa outra: “Seu Zé, cadê o guarda-chuva? ”… E mais uma: “Seu Zé, não fique tomando essa garoa”…

A cadeira está na calçada. No auge dos seus 81 anos e devidamente uniformizado de azul todos os dias úteis, ajuda os motoristas a manobrarem, dá informações, deseja bom dia, reclama do tempo. Ele mora nesta mesma rua, em uma das casas que ainda não viraram clínicas, mas as clínicas são a sorte dele e ele a sorte delas, com um anfitrião tão solícito.

“Já almoçou? ”, ele pergunta. “Eu também já, hoje teve feijoada”. Com as moedas que ganha dos motoristas, ele almoça no restaurante da esquina, onde, claro, conhece todo mundo. Você pode passar o dia inteiro pelo Seu Zé e todas as vezes ele vai falar oi. Se não o vejo, às vezes escuto um chamado. Olho para trás e lá está ele ao longe, abanando a mão, sorridente. Nos momentos vagos, entre um carro e outro, escuto o barulho de seu portão. Entrou para pegar uma caixa de ovos, que vende para os vizinhos.

Ele precisa disso para viver, mas não pelo lado monetário. Passar os dias trabalhando na ruazinha estreita é a alegria de Seu Zé e ele, por sua vez, a alegria da ruazinha. Um exemplo de quem, mesmo sem a necessidade do dinheiro, tem a necessidade do afeto e assim trabalha por amor.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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