Renovar é preciso, mas não ande sem combustível

Escrevendo pelo celular, deitada em um colchão inflável, ventilador trazendo o refresco que o ar parado da tarde não me traz e eu não poderia estar mais feliz. O quarto é um velho conhecido da minha infância, mas nunca foi meu. A casa do meu tio, onde morou por muitos anos com a família, fica em uma cidade pequena e quente no interior de São Paulo, onde o asfalto derrete, e a gente também. Cidade de nascimento da minha mãe, brinquei muito em um quintal de terra que hoje não existe mais, pois outra casa, da minha avó, foi vendida há alguns anos. Perdas necessárias que fazem parte da evolução da vida.

Na casa do tio, hoje vazia apenas para receber visitas, tudo é igual a antes. A sala, a varanda, o quarto. Engraçado como a gente se apega a coisas, lugares… É quase como que um reconhecer-se, uma prova física de que vivemos algo, um auxílio que nos faz relembrar. Ainda mais quando só se faz este retorno de tempos em tempos. E hoje, aqui, deitada, vivo uma nova experiência – não a de fazer desenhos coloridos no papel, como antes, mas escrever um texto usando os polegares que erram as letras pequenininhas na tela do celular, que prontamente corrige os deslizes – e penso na passagem de tempo. Encerrar um ciclo não é abandonar tudo. Mas renovar é preciso 2

Muitos parentes para se visitar, tias, tios, primos, histórias. De repente os problemas que pareciam tão grandes se mostram pequenos e vão ficando para trás, enquanto observo meus pais e tios digitando, gravando áudios, fazendo selfies para postar no grupo da família, geralmente em volta de mesas simples, fartas e cheias de gente. Horas em que eu me preencho na alegria de ter o mesmo sobrenome que todos aqueles que aqui estão, de carne, osso e sangue antes de continuarmos viagem para ver mais gente querida.

Algumas coisas mudam, outras permanecem as mesmas, pessoas vão e vêm, mas a essência do que nos faz bem e realmente importa, permanece. E nos faz perceber que, de tempos em tempos, a gente precisa parar. Observar o que de fato nos faz feliz. Refletir. O que me renova as energias não necessariamente é bom para todos, cada pessoa tem sua válvula de escape, que faz perceber a grandiosidade da vida. Seja na família, ou na natureza, quem sabe tirar uns minutos para ficar em silêncio, ler um livro, orar. “É preciso sair da ilha para ver a ilha”, como diz o poema. É preciso nos afastar para olharmos melhor para nós.

Logo voltamos à rotina, outro ciclo se inicia, retomamos o que deixamos para trás ou abandonamos velhos hábitos. Pode ser que tudo mude, ou que nada mude. Mas rebasteça, recarregue-se como puder. Respire fundo. É o que estou fazendo. Toda a força para nós neste novo ciclo.

Andressa, a detalhista

Sobre Andressa, a detalhista

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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