Mulheres e Futebol


 Quarta tem sempre um clima diferente, embora minha rotinha raramente seja surpreendente nesse dia: o barulho chato do despertador às 06h30, as cochiladas no ônibus, trabalho, muito trabalho, as cochiladas no ônibus, o alívio de chegar em casa, as latinhas na geladeira, pendências urgentes  de trabalho, o final do jornal e, finalmente, o jogo. Pois é, eu gosto de futebol!

Desde pequena assisto aos jogos, e os minutos que antecedem as partidas ainda são recheados de ansiedade. Não só vejo, como entendo até que bem as regras e esquemas táticos. Hoje, não acompanho tanto quanto eu gostaria, infelizmente. Estou por fora de muitos resultados, lances e transações, mas ainda sou capaz de tecer comentários mais pertinentes que muitos comentaristas esportivos que temos por aí, o que não seria muito difícil, vamos combinar.

Não só eu, mas muitas de minhas amigas e conhecidas partilham desse mesmo interesse. Em rodas de conversa, não falamos apenas sobre homens e relacionamentos, ou apenas sobre maquiagem e sapatos, como muitos acham. Nós  falamos de política, de sexo e, sim, sobre futebol.

Nem todas gostam e entendem, é claro, mas me incomoda muito quem ainda acha que futebol é apenas assunto de homens e que qualquer mulher que se mete no assunto não passa de uma intrusa em um universo que não foi feito para ela. Tanto que não é raro que muitos ainda nos olhem com desconfiança e descrédito quando ousamos comentar qualquer lance, e não é raro, ainda, que eu escute comentários do tipo: “mulher não entende de futebol” ou “mulher não tem que se meter em assunto de homem”. Ora, quem foi que disse que nós, mulheres, não podemos gostar também de futebol? E quem foi que disse que nós, mulheres, não somos capazes de entender de futebol tanto quanto ou melhor que muitos homens?

Essa postura machista me incomoda muito e há anos. Com o tempo, porém, percebi que, diante da pequenez alheia, às vezes não adianta nos desgastarmos e o melhor é não estragar o clima gostoso de um dia de jogo. O negócio é abrir uma latinha, curtir a partida e  conversar sobre essas e outras questões apenas com os que são abertos ao diálogo franco e  com os que têm espírito elevado para reconhecer que qualificar alguém por questões de gênero é também uma forma de admitir nossas próprias fraquezas.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *