Marisa de Verdade

Confesso que, quando menor, fui dessas meninas apaixonadas por boy bands. Tinha cd’s, pastas com revistas e pôsteres (frequentemente trocados com colegas da escola), fitas gravadas com músicas das rádios e outras tantas com programas de TV em que as bandas apareciam. Conhecia cada música, cada coreografia e conheci a tristeza de não poder ir, pela primeira vez, a um show.

Hoje dou risada, mas não me envergonho dessa fase que durou tão logo as bandas foram se desmanchando. Meu ouvido, aos poucos, foi se afeiçoando a outros artistas, de fato geniais, e que passaram a ser decisivos em relação ao meu gosto musical. Passei a me interessar mais pelos chorinhos que meu pai escutava enquanto lavava o opala; pelos Beatles que emocionam minha mãe desde a adolescência, pelos sambas que embalam muitos tios, pelos rocks de irmãs e amigos. A cada descoberta que me maravilhava, lá ia eu escutar a esmo cada canção, decorar letras e buscar outras referências. A melhor delas aconteceu quando eu escutei Marisa de verdade.

Tinha 11 anos quando prestei, pela primeira vez, atenção na sua voz. Estava lavando a louça e aquele canto rouco foi invadindo aos poucos as paredes, os quartos, os armários, a geladeira, a despensa, o fogão. De repente, lavar a louça já não era tão enfadonho assim, e, enquanto lavava, me veio uma vontade imensa de chorar. Corri para o quarto a fim de verificar que raio de música era aquela que tanto me emocionou. Foi assim que me deparei com o cd Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão, um dos meus favoritos até hoje. Escutei-o do início ao fim extasiada com a doçura e a sensibilidade que vinham de cada música. De um cd fui a outro, e tudo que escutada soava incrivelmente encantador. Foi assim que Marisa se tornou uma de minhas maiores referências musicais.

É claro que meus jazz, blues e rocks continuaram a me acompanhar. De Ella a Ná Ozzetti, de Pearl Jam a Neil Young, todos eles tinham seu espaço cativo e sempre eram lembrados nas minhas idas ao sebo e na minha lista de shows que gostaria de ir antes de morrer. Ao longo dos anos, muitos desses encontros felizmente aconteceram: Oasis, Paul McCartney, Eric Clapton, Bob Dylan… Mas faltava ela. Faltava! Não falta mais. Este ano pude, finalmente, conhecê-la.

No palco, uma figura esguia e iluminada. Ao redor, projeções que invadiam o palco a cada canção e tornaram aquele momento ainda mais mágico e encantador. Um show capaz de tocar o mais frio dos corações. Todos os meus sentimentos e lembranças cantados ali, na minha frente.  Naquele instante, eu me lembrei de quando aquela voz rouca me sensibilizou pela primeira vez e reafirmei o porquê de gostar tanto assim dela. Tal qual os versos de Drummond, suas músicas me fazem lembrar que o melhor da vida sempre esteve em seus aspectos mais singelos, mais sinceros e puros. Ambos sempre tiveram um apreço pelos elementos mais simples do dia a dia, as que nos rendem os mais belos sorrisos.  Certa vez, inclusive, ela disse que coisas singelas a põe feliz. Era isso…

                                                                                                                               

 Maria de Verdade, do cd Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

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