MANTEIGA DERRETIDA

Era uma vez uma manteiga derretida. Ela vivia em temperatura ambiente, era cheirosa e muito saborosa.  Orgulhava-se quando, ao tocar o pão quentinho, se derretia toda deixando um indescritível perfume no ar e convidava o paladar de qualquer ser humano sensível a se entregar completamente ao seu aroma. Mesmo não sendo fácil ela sempre se derretia, e quando acontecia era algo natural e espontâneo. De repente tudo mudou. A manteiga passou a morar dentro de uma geladeira. Lá tudo era diferente. A começar pelo frio intenso. Esse detalhe fez muita coisa mudar nela, principalmente sua estrutura. O seu toque no pão já era mais o mesmo. Antes era úmido e macio. Agora seco e doloroso. Já não havia mais aderência. A manteiga e o pão juntos, agora ficavam em pedaços.

O desejo de ela voltar a ser uma manteiga derretida era muito. Mas, muitos falavam para ela de que ser manteiga derretida novamente não serviria mais para nada, afinal ela é fraca e perecível.  “Ah, vê se para de ser assim, sua manteiga derretida!”…  E lá ia ela de volta para a geladeira. E continuou assim por um tempo, até o dia que ela conseguiu voltar completamente a sua temperatura ambiente.

Com o choque térmico suas ideias ficaram claras. E foi assim que ela percebeu que seu diferencial era justamente continuar sendo a manteiga derretida que sempre foi. Afinal, sem o seu derretimento, como as pessoas poderiam sentir seu saboroso aroma no ar?

Percebendo isso, ela tratou logo de decretar o fim de sua morada naquela fria e obscura geladeira e voltou definitivamente a assumir seu posto de manteiga derretida. E assim, ela conseguiu voltar a sua essência: de ser uma manteiga sensível,  empática, amável, sentimental… livre!

Desejo a todas as incríveis e poderosas mulheres ‘manteigas derretidas’ como eu, que a frieza desse mundo nunca possa nos endurecer. E se de alguma forma isso acontecer, que possamos sair dessa geladeira o mais rápido possível para saborearmos plenamente o pão da vida.

Ana, a atrevida

Sobre Ana, a atrevida

Atrevo-me a me inspirar, atrevo-me a mergulhar profundamente em letras, espaços e pontos, símbolos conducentes, ícones de sentimentos (...) me atrevendo me formei em artes visuais, me atrevendo me dedico a profissão de editora de imagens já por quase vinte anos, me atrevendo pinto, bordo, costuro. Me atrevendo me casei. Me atrevendo viajei o mundo, me atrevendo escrevo às sextas e você me lê. Atrevida!

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