Lute como uma mulher

Tudo o que a gente precisava era de algum motivo para nos orgulhar. Para falar: “Ei, olhe para nós. Aqui tem coisa boa, olha isso, fazemos direito”. O orgulho, ou, eu diria, alívio em não precisar nos envergonhar do nosso país por um tempo, ao menos no âmbito olímpico, deu um respiro para muita gente.

Desde a cerimônia de abertura feita aqui no Brasil, e por gente nossa, que deixou impressionada a imprensa de vários países que antes nos desacreditava totalmente – nósLute como uma mulher 3 também não estávamos botando fé, vamos admitir – até resultados bastante positivos nos jogos, mesmo sem muitas medalhas, tem deixado as pessoas, em geral, mais contentes. E, preciso destacar, as mulheres estão arrasando e representando sua pátria muito bem nos jogos 2016. Você já deve ter visto em suas redes sociais frases como: “lute como uma garota”, “jogue como uma garota”. Ah, brasileiros… que orgulho!

Não estou aqui para elogiar apenas as mulheres, mas temos que concordar que já não é fácil treinar praticamente sem ajuda monetária alguma, como vive a grande maioria dos atletas brasileiros, exceto os do futebol masculino. Some a isto ouvir que esporte é coisa de homem, que mulheres são fracas, ser impedida de praticar esportes com amigos por ser mulher, e as que se empenham em continuar muitas vezes são julgadas por questões que nada tem a ver com sua capacidade.

Se sua aparência não agrada, discutem sua sexualidade. Se ela agrada, vem o assédio, o desencorajamento, frases como: “você é tão bonitinha, vá procurar outra coisa para fazer”. Tem que ter mesmo muita determinação e olha que isso é só um pouco do que as atletas devem ter que driblar para chegar a uma olimpíada e, mais ainda, para ganhar uma partida que seja no evento, e que dirá uma medalha. É ou não é para se orgulhar? É sim, e muito. Aplaudo de pé.

Primeira medalha de ouro do Brasil nestas Olimpíadas foi conquistada por uma mulher e temos outras guerreiras também

Esta mulher é Rafaela Silva, judoca, superou vários desafios. Pobre, moradora de periferia, não a deixavam brincar com os garotos quando criança por ser mulher. Jogadora Marta, do futebol, foi eleita 5 vezes a melhor do mundo. Repito: melhor do mundo. Cinco vezes. É brasileira. Seleção feminina de futebol Lute como uma mulher 4dando show de técnica e bons resultados nos jogos. Handebol e vôlei feminino vencedoras de muitas partidas contra campeãs de outros anos. Vale até mesmo citar outra Olimpíada, a de Neurociências 2016, onde aluna Lorrayne Isidoro ganhou o campeonato nacional e foi representar o Brasil na competição mundial na Dinamarca. Que exemplos essas mulheres.

Exemplos refletem na cultura de novas gerações

Sabe por que essa discussão é tão interessante? Porque vai ajudando a mudar a cabeça um pouquinho dos adultos e, principalmente, ajuda a formar a consciência das crianças. Outro dia em uma roda de amigos ouvi duas meninas de seis anos conversando, as quais eu já conhecia. Ambas tem pais ótimos e esclarecidos e, como outras de sua idade, adoram princesas e romance. O que mais me chamou a atenção foi uma discussão sobre porcentagens. Elas diziam: “Eu sou um pouco menino e um pouco menina”, avaliando quantos porcento de menino e menina havia em cada uma.

Eu quis saber o que elas consideravam ser “um pouco menino” e elas me responderam complementando a fala uma da outra: “É que eu gosto de jogar basquete, de futebol, essas coisas”. Eu falei: “Esporte é coisa de menina também. As mulheres são ótimas jogadoras, você pode gostar de esportes e você continua sendo menina”. Poder dizer isso para elas, principalmente em uma época com tantos exemplos positivos, não tem preço.

São as plantinhas que vamos cultivando aqui e ali. Se a imagem que aparece das mulheres na televisão, nos livros, nos noticiários, na Internet, enfim, for positiva, como são as dessas mulheres, aos poucos – mesmo que a passos lentos – a cultura sobre o papel da mulher na sociedade vai mudando e se desvencilhando de conceitos sem sentido.

É um acalento em meio a um período político tão turbulento no Brasil, a tantos escândalos, em meio a muita coisa que há anos a gente reclama, ter pessoas que nos orgulham por sua garra como estes atletas. Mais ainda a forma com que as mulheres estão mostrando sua capacidade aos olhos dos brasileiros. Voltando ao tópico da cerimônia de abertura dos jogos Olímpicos, que mostrou incontestáveis qualidade e profissionalismo, foi interessante nos dias seguintes ouvir as pessoas nas ruas falando bem de nossa capacidade. Engraçado como às vezes só precisamos de um pouco de orgulho.

Andressa Vilela

Sobre Andressa Vilela

A profissão de fotógrafa já denuncia minha atenção e gosto pelo detalhe. Apesar de amar as imagens, também adoro escrever e principalmente, pensar sobre o cotidiano. Formada em jornalismo, trabalhei nesta área antes de morar na Irlanda, onde passei quase dois anos. Conhecer e explorar o novo é sempre bem-vindo. Assim também é um bom brigadeiro de panela.

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