“La Sebastiana”, a casa de Pablo Neruda

"La Sebastiana", a casa de Pablo Neruda 1

Nestas férias visitei o Chile. Visitei Valparaiso onde está a casa de Pablo Neruda. Fiquei emocionada quando entrei na casa. Foi como voltar no tempo e ser recebida pelo poeta e acompanha-lo enquanto mostrava sua encantadora casa. A vista é tão linda. De cada piso se vê Valparaiso e o mar pelas grandes janelas de vidro.  O poeta passou lá o seu último réveillon.

Transcrevo abaixo o poema que Pablo Neruda escreveu para sua querida residência.

“A Sebastiana”    

Eu construi a casa.

Primeiramente fi-la  de ar.

Depois hasteei a bandeira

e deixei-a pendurada

no firmamento, na estrela,

na claridade e na escuridão.

Cimento, ferro, vidro,

eram a fábula,

valiam mais que o trigo e como o ouro,

era preciso procurar e vender,

e assim um camião chegou:

desceram sacos  e mais sacos,

a torre fincou-se na terra dura – mas isto não basta, disse o construtor,

falta cimento, vidro, ferro, portas –

e nessa noite não dormi.

Mas crescia,

cresciam as janelas

e com pouca coisa,

projetando, trabalhando,

arremetendo-lhe com o joelho e o ombro

cresceria até ficar completada,

até poder olhar pela janela,

e parecia que com tanto saco

poderia ter teto e subir

e agarrar-se, por fim, à bandeira

que suspensa do céu agitava ainda as suas cores.

Dediquei-me às portas mais baratas,

às que morreram

e foram arrancadas das suas casas,

portas sem parede, rachadas,

amontoadas nas demolições,

portas já sem memória,

sem recordação de chave,  e disse: “Vinde

a mim, portas perdidas:

dar-vos-ei casa e parede

e mão que bate,

oscilareis de novo abrindo a alma,

velareis o sono de Matilde

com as vossas asas que voaram tanto.”

Então a pintura

chegou também lambendo as paredes,

vestiu-as de azul-celeste e cor-de-rosa

para que se pusessem a bailar.

Assim a torre baila,

cantam as escadas e as portas,

sobe a casa até tocar o mastro,

mas o dinheiro falta: faltam pregos,

faltam aldrabas, fechaduras, mármore.

Contudo, a casa

vai subindo

e algo acontece, um latejo

circula nas suas artérias:

é talvez um serrote que navega

como um peixe na água dos sonhos

ou um martelo que pica

como um pérfido pica-pau

as tábuas do pinhal que pisaremos.

Algo acontece e a vida continua.

A casa cresce e fala,

aguenta-se nos pés,

tem roupa pendurada num andaime,

e como pelo mar a primavera

nadando como uma ninfa marinha

beija a areia de Valparaíso,

não se pense mais: esta é a casa:

tudo o que lhe falta será azul,

agora só precisa de florir.

E isso é trabalho da Primavera.

Neruda, Pablo, Plenos Poderes, Tradução de Luís Pignatelli, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1962, p.73. https://natrodrigo.wordpress.com/category/pablo-neruda/

Acir, a viajante

Sobre Acir, a viajante

Faço do mundo a minha morada, conhecendo lugares nunca vistos. Conheço a mim mesma me vendo em outros rostos, em outras culturas. O meu encontro e encanto com outros mundos é o encontro e encanto com uma parte adormecida e inexplorada em mim, que anseia pelo desconhecido.

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