Infância Perdida

O som era alto e pouco entendia o que estavam cantando.  Era um dos pagodes que rolavam no bairro onde mora uma amiga. Embora aquele ambiente não nos fosse familiar, resolvemos parar para tomar a saidera antes de irmos para casa. Quando entramos, a banda tocava músicas que mal conhecíamos; ao fundo, o churrasco rolava solto, enquanto crianças, senhoras(es) e jovens se entrelaçavam naquele pequeno espaço, com os braços ao alto, o balanço marcado e aquele cantar com um sorriso nos lábios. Não apreciava a música, a fumaça, o aperto, mas aquele entusiasmo despertou minha atenção e o gosto em observar.

Essa doce curiosidade findou, porém, naquele instante. O instante em que, ao final de uma música, algumas crianças que ali estavam tiveram a permissão de subirem ao palco para cantarem durante o intervalo. Subiram, então, e seguraram o microfone com segurança, como se já tivessem feito aquilo por diversas vezes. Com a mesma segurança, se viraram e, de forma constrangedora, dançaram e cantaram algo que não era pagode, não era samba, não era música. Daquele som abafado, pude ouvir apenas alguns palavrões e termos  que nem cabe mencionar.

Ao redor, as feições tornaram-se sérias e os olhares eram de reprovação. Em frente ao palco, algumas mulheres e jovens, ao que parece familiares das crianças, cantavam junto e acompanhavam-nas nas coreografias, até que um homem, constrangido como muitos que lá estavam, subiu ao palco e as tirou de lá. Elas desceram e pareciam orgulhosas do que tinham feito, tanto quanto quem as acompanhava e as abraçava.

Fui incapaz de ouvir e ver o restante. Olhei para minha amiga e, no mesmo instante, fomos embora de lá. Ainda que aquela cena tivesse nos deixado atônitas, nada daquilo era distante do que via em escolas, nas ruas, nos shoppings, nas redes sociais, na televisão… Vê-se essa precocidade por todos os lugares. O que me deixou mais abismada, em verdade, foi a reação dos familiares que aplaudiam e incentivavam aquele festival  despudorado e vergonhoso. Ao acharem “bonitinho” ver seus filhos  vestindo-se como os pais e dando em cima das menininhas, e ao acharem “lindo” suas filhas com química nos cabelos, cheias de maquiagem e rebolando em cima de um palco, estavam tirando delas a fantasia, as brincadeiras, os sonhos, a inocência e o direito de serem o que são: crianças.

Gabriela, a observadora

Sobre Gabriela, a observadora

Tenho um gosto particular pelos pequenos prazeres que a vida pode proporcionar. Um tanto quieta e observadora, sonho muito, critico muito e gosto de me desafiar. De tudo que vejo, penso e sinto: conto, crônica e o que mais der na telha.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *