Fiz de tudo e nada de te esquecer …

ou declaração a minha terra!

Acredito que a ligação que temos com a terra da gente é a mesma relação que temos com nossos pais biológicos. Mesmo estando distantes, estamos superligados; mesmo sendo criados por pais adotivos perfeitos e maravilhosos, ainda temos a necessidade íntima, descomunal, de buscar as origens; mesmo não tendo mais vínculos, estamos intrinsecamente entrelaçados para sempre.

Há algo enraizado, entranhado, que não se corta com a separação ou a distância, nem com o tempo. Moradora de Campinas, tenho um carinho especial por essa cidade. Vim menina, cresci e já começo a envelhecer aqui. São mais de 30 anos nesta terra que passou a ser minha também; mas, ao mesmo tempo, ela não é – pelo simples fato que não foi aqui que nasci e que tive meu primeiro contato com o mundo, com meus valores, construí minhas primeiras visões. Não foi aqui que vivi a aurora da minha vida.

Assim que me radiquei em Campinas, fiquei cerca de 10 anos sem voltar à cidade natal, São João da Mata, no Sul de Minas, a cerca de 45 km de Pouso Alegre. Até hoje, quando me lembro do primeiro retorno, sou tomada por uma profunda emoção. Apesar do sentimento de gratidão e acolhimento que tenho por Campinas, nunca senti nada comparado com aquela sensação.

Durante o regresso, achei que todos os laços estavam desfeitos. Nada mais do que eu deseja estava ali. Minha família vivendo com bastante tranquilidade por aqui. Os amigos, na sua maioria, tinham partido; muitos conhecidos, levados pela vida. A cidade se transformara pouco, ao ritmo mineiro – bem lento. Tudo parecia estar ainda no mesmo lugar com pequenos retoques; mas pra mim, tudo estava fora da ordem; ou melhor da ordem da minha história – mais do que natural. No Censo de 2010, São João registrou 2.732 residentes. No início dos anos 80, esse número beirava 1500 ou 1700 moradores, no máximo. Enfim, não houve nenhum crescimento vertiginoso que pudesse causar uma revolução urbanística ou uma ampla transformação naquele espaço.  A única mudada profundamente, ali, era eu mesma. Sai menina e voltei jovem… uma mulher.

Ainda que, ao olhar, a escola, igrejas, casas permanecessem intactas ao tempo, nada mais lembrava os velhos tempos, mas parte da minha história e do meu coração pertenciam aquele lugar, estavam ainda ali. A minha casa já não existia mais – outro pedaço da gente. O terreno foi todo partilhado por outras construções, mas como ocupava uma esquina atrás da matriz católica, bastava piscar para toda cena voltar límpida e transparente de tempos inesquecíveis.

Quanta emoção aquela cidade proporcionava ainda na minha vida. Quem lê isso pode pensar, ela viveu a infância lá, e esse período é muito especial. Mas será que ele é mais importante que todos os demais períodos da nossa existência? Não sei dizer. Alguns psicólogos talvez afirmem que sim.

Nessas três décadas, devo ter retornado lá – não mais que – cinco ou oito vezes; meu contato com as pessoas da terra é quase inexistente, mas a relação com São João é inexplicável e não diminui. A ausência e a distância exponenciam os sentimentos. É como se a árvore tivesse sido cortada no caule, mas suas raízes ficassem ficadas naquele chão para sempre. Basta uma foto do colégio, as montanhas mineiras, ouvir um mineiro falar, o queijo e o doce de leite na mesa, um pouco de poesia, que vejo e sinto Minas em mim.

Pra muitos fica a impressão daquele saudosismo e nostalgia sem fim. Mas questiono como conciliar uma crença e fé profundas que todos somos cidadãos do mundo, quando me sinto, antes de tudo e depois de tanto, tão cidadã de Minas e de São João.

Já me questionaram se um dia voltaria para lá.Tenho absoluta certeza que não, nem desejo. Não me sinto exilada, nem as dores do exílio tomam meu pensar e viver. Apenas, com certa frequência, sou tomada por uma saudade inexplicável. Por isso, empresto de Chico Buarque parte da letra de Sabiá, para me referenciar a minha terra: “…fiz de tudo e nada de te esquecer.” E me inspiro em Casemiro de Abreu, no poema Meus oito anos, aquele da “Aurora da minha vida” para parafrasear:

Oh, que saudades que tenho do junho de São João;

das festas do Rosário, do orvalho de maio;

da chuva que vinha da serra, do céu forrado de estrelas…

de anos e tempos que não voltam mais.

 

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

Ver tudo

Comente este post!

O seu endereço de e-mail não será divulgado. Os campos obrigatórios estão marcados (*)

Comentário *