Eu não quero comercial na TV.

Se tem algo que me faz dar risos de sarcasmo são comerciais que veneram o professor. Um deles, inclusive, traz alguns estereótipos de outras nacionalidades falando que devem tudo a seus professores, etc, clichê etc. Até corre uma lágrima e eu consigo ver milhares de pessoas que não conseguem visualizar a realidade da educação (exatamente pelo fato de esta ser cuidadosamente colocada à margem das importantes pautas sobre divórcios de celebridades e escândalos futebolísticos) dizendo “Poxa, esses, sim, são importantes.” Ora, e eu com isso?

Entenda só: eu e todos os demais profissionais da educação já sabemos disso e, para ser honesta, os protestos e greves que rodam o Brasil pouco tem a ver com uma “necessidade de confete”, mas sim com desejo de reconhecimento. Repito: reconhecer não é inflar o ego de ninguém.

Não é o comercial falando que nosso trabalho é importante que reconhece a importância do professor na sociedade, mas sim vivenciar sua rotina de trabalho extenuante e árdua para, então, oferecer uma remuneração digna do trabalho do profissional. Além de entrar em salas lotadas (muitas vezes, sem a estrutura básica: lousa, cadeiras, carteiras, giz, apagador, janela, cortina, piso no chão e afins), lidar com inúmeros problemas de aprendizagem e emocionais também, o professor sai da sala carregado de coisas para corrigir, aulas para preparar e mais: não ganha um centavo sequer a mais por isso.

E, quando protesta, reclama, faz greve, explica que um piso nacional de R$ 1.400,00 só pode ser uma piada para um profissional graduado que precisa se reciclar continuamente, dizem “Mas é que professor tem que ter dom.” E para ser qualquer coisa, na verdade, precisa ser habilidade. A diferença é que ser professor se tornou um arquétipo de profeta moderno, alguém que abre mão do material em prol da doação do conhecimento, a la monges copistas da Idade Média.

Infelizmente, não é um comercial que leva as pessoas às lágrimas que vai resolver a situação de um profissional que se tornou uma figura religiosa na visão de mídia e do governo. Um país que está entre as 10 maiores economias do mundo tem governantes que sabem diferenciar apelo midiático de reconhecimento e, certamente, sabem como oferecer este último. É só questão de mão-na-massa. E mentalizem como um mantra: ser professor também tem a ver com ganhar dinheiro.

Cecilia Garcia

Sobre Cecilia Garcia

Libriana com ascendente em Sagitário, e, além de tudo professora, acredita que, para tudo nessa vida, há de se ter uma explicação, exceto para falta de educação gratuita (que a tira do sério instantaneamente. Cinéfila, amante de livros e sonhadora, pensa muito, o tempo todo, sobre quase tudo. Também é nerd e boleira, se identificando muito mais com o mundo masculino do que com o feminino em alguns momentos. Tá achando um pouco misturado demais? Coloque aí um sangue espanhol que ferve rápido e divirta-se com o resultado: um olhar otimista sobre a vida, mas sem perder o sarcasmo jamais.

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