Eu me arrependo de muito!

Que me desculpem os sinceros, mas não acredito nessa virtude quando ela possa estar associada a um tema bastante complicado: a questão de se arrepender. Ao longo da minha vida, acho que a frase mais mascarada que já ouvi foi a famosa “não me arrependo de nada” e suas versões “faria de novo – igualzinho”, “não lamento nada”, como na bela canção de Piaf – de arrepiar – mas isso para mim não soa nada verdadeiro.

Non! Rien de rien, (não, absolutamente nada)
Non! Je ne regrette rien. (não, não lamento nada)

Acho isso de uma pretensão sem tamanho, quase mesmo burrice. Como se nossas decisões ao longo do passado e no presente pudessem ser sempre as mais acertadas? Não são mesmo. A gente erra pra caramba, toda hora, buscando acertar ou não; às vezes, erra por tolice mesmo, por ingenuidade, por medo, por insegurança, por tanta coisa. Somos naturalmente errantes – como em outra canção: “vamos errando enquanto o tempo nos deixar”. Mas não dá para apostar e acreditar que se houvesse uma segunda chance, faríamos tudo outra vez seguindo a mesma receita e repetiríamos todas as idiotices – das mínimas às mais grandiosas.

Costumo esbravejar que me arrependo de inúmeras escolhas sobre os mais variados temas, sem nenhum pudor. Eu me arrependo de amores, de escolhas profissionais, de decisões em ambientes de trabalho, de amizades. Eu me arrependo de posicionamentos políticos, das coisas mais cotidianas, de posicionamentos familiares, de disputas, de silêncios; enfim, de tanta coisa. Mas isso não é um peso insuportável pra mim, não; é só uma constatação de um olhar mais frio, distante da escolha feita no ontem, no passado, no agora há pouco. Vejo o arrependimento não como uma culpa que tenho que carregar, mas um olhar mais maduro sobre a vida. E como não me sinto e nem sou infalível, posso gritar “eu me arrependo” de muito.

Tenho a impressão que aqueles que dizem que começariam tudo da mesma forma sentem-se perfeitos, que construíram um histórico sem quaisquer manchas, coisa que nenhum ser humano consegue. Eu só tenho a lamentar por aqueles que não se arrependem, pois vejo nessa farsa, muita vaidade e medo de suportar os próprios erros; ou até imaginar que todos os erros fossem mesmo necessários.

O arrependimento, já diziam por aí, é a melhor forma de provar que aprendemos com o erro ou como versa uma outra frase que não sei a autoria: “prefiro que enxerguem meus erros com arrependimento do que uma falsa perfeição.” 

E afinal, se é pra errar – nosso direito ad eternum – que seja para experimentar erros novos. Quem não se arrepende não vai fazer isso. Que o nosso recomeçar não signifique repetir, nem reproduzir. Prefiro a variante do reinventar-se, de errar até (quem sabe) com criatividade.

Denise, a transbordante

Sobre Denise, a transbordante

Transbordo em choros e risos, raiva e paciência, novidades e mesmices. Por pouco posso me indignar, como também explode em mim alegrias inesperadas por quase nada. Sou soma – de mim, dos outros, do mundo, do meu tempo. Às vezes, divisão; mas busco a multiplicação daquilo que acredito para que a essência não seja subtraída. Quero transbordar neste espaço com vocês, às quintas. Sou jornalista.

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